Vieira esperava ser ministro, diz ex-chefe

Presidente da Agência Nacional de Águas afirma que líder de suposto esquema alardeava proximidade com pessoas importantes do governo

ROSA COSTA/BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 23h52

Paulo Rodrigues Vieira, apontado pela Polícia Federal como chefe do esquema de venda de pareceres técnicos de órgãos federais, aspirava a um cargo mais alto do que a diretoria da Agência Nacional de Águas (ANA) e dizia que seria indicado para o cargo de ministro do Meio Ambiente.

O ex-diretor também gostava de alardear proximidade com pessoas importantes, como o ex-chefe da Casa Civil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu, segundo informou ontem o presidente da ANA, Vicente Andreu Guillo, ao depor na Comissão de Meio Ambiente, Fiscalização e Controle do Senado.

Em cerca de duas horas, Andreu falou da dificuldade dos demais diretores da ANA de conviver com uma pessoa que descreveu como "complexa e ambiciosa", de personalidade difícil, com "altos e baixos". "Ele falava muito em ser candidato, tinha pretensões eleitorais, chegava a mencionar que estava cotado para ser nomeado ministro. Tinha esses arroubos com os quais a gente precisava conviver."

Paulo Vieira chegou ao cargo graças à proximidade com Rosemary Nóvoa de Noronha, ex- chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, e o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o indicou para a vaga.

Área técnica. Filiado ao PT, Vicente Andreu relatou que Dirceu disse não conhecer Vieira. "Sou amigo de longa data de Dirceu, liguei para ele, que me disse nem sequer conhecê-lo", contou.

Andreu disse que o escolhido por Rosemary e Lula ficou desanimado com a agência porque esperava exercer outros tipos de atividade. "Ele tinha uma expectativa de que a agência poderia fazer regulação de saneamento, competências que não eram nossas. Ele desanimou, acho que tampouco conhecia a agência adequadamente e era uma pessoa ambiciosa, mas do tipo de pessoas que queriam alçar outros voos."

Se pudesse escolher, Andreu acredita que Vieira optaria pela área de fiscalização e regulação e não pela Diretoria de Hidrologia. "Ele era um desconhecido no setor, não tinha formação na área. Embora pareça contraditório, optamos por colocá-lo numa diretoria de natureza muito técnica, por ser menos suscetível a decisões discricionárias. Ele discordou, mas o mantivemos assim nos dois anos em que esteve na agência para garantir o menor nível de influência possível em questões de natureza subjetiva ou pessoal", explicou.

Rodízio. O presidente da Ana disse que Rosemary Noronha chegou a visitar Paulo Vieira nas instalações da agência. "Apesar de ser militante antigo do PT, não conheço Rosemary. Soube que Paulo chegou a levá-la para visitar a agência, mas nunca recebi nenhum pedido dela e nem de ninguém do governo", informou. "Vou lhe dizer aqui em primeira mão que ele chegava a cogitar que iria ser ministro do Meio Ambiente. Então era assim, era esse o tipo de personalidade com o qual nós lidávamos, mas não trazendo no processo histórico qualquer desconfiança de que fosse uma pessoa delituosa, criminosa ou qualquer coisa desse tipo", destacou.

Vicente Andreu contou ainda que, para impedir o "avanço" de Vieira na ANA, eles decidiram suspender o rodízio entre os diretores na superintendência. Segundo ele, Paulo Vieira se consolava, dizendo que sairia da área técnica em um futuro próximo. "Ele dizia, bom, daqui a um ano vai haver o rodízio e, no rodízio, eu não vou ficar mais com essas áreas técnicas e posso eventualmente ter uma participação em outras áreas."

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