Vice de Alckmin e ministro de Dilma, Afif sela aliança do PSD com petistas

Sintoma da montagem antecipada de palanques para a eleição de 2014, a presidente Dilma Rousseff anunciou ontem a escolha do vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, do PSD, para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa. O 39.º ministério foi criado para acomodar o partido do ex-prefeito Gilberto Kassab na órbita do Planalto e assim assegurar o tempo de televisão ao qual o PSD tem direito (1m39s) para a propaganda eleitoral do PT. Afif toma posse na quinta-feira.

TÂNIA MONTEIRO / BRASÍLIA, FERNANDO GALLO , JULIA DUAILIBI/ SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2013 | 02h00

A ida de Afif para o ministério causa um enorme constrangimento ao governador tucano Geraldo Alckmin. Afif será vice-governador de um tucano e ministro de uma petista ao mesmo tempo. Egressos do DEM, Afif e Kassab apoiaram o PSDB até as eleições municipais de 2012, e agora migram para a base petista. Afif foi do antigo PFL e aliado de Paulo Maluf e Celso Pitta.

Alckmin não mantinha boa relação com o vice desde 2011, quando o demitiu da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Na época, essa foi uma retaliação pelo fato de Afif ter trocado o DEM, partido aliado dos tucanos, pelo PSD. A nomeação de Afif causou indignação entre tucanos, sobretudo pelo fato de Kassab ser um potencial rival de Alckmin em 2014.

A ordem no Palácio dos Bandeirantes, porém, é não desgastar o vice e não fazer questionamentos jurídicos sobre a dupla função. Em tese, seria possível submeter Afif a um processo de impeachment, defendem alguns aliados de Alckmin. Por ora, o governador não quer comprar essa briga. No PT, a orientação é a mesma: não contestar o passado político do vice-governador, um liberal convicto.

Em nota, o vice-governador disse ontem estar honrado com o convite de Dilma e agradeceu a Alckmin. "Faremos um grande trabalho de cooperação entre governo de São Paulo e governo federal", disse (mais informações no texto ao lado).

Palanques regionais. Horas antes de ter a nomeação como ministro oficializada pelo Planalto, Afif foi elogiado por Dilma no evento de posse da diretoria da Associação Comercial de São Paulo, onde a petista dividiu o palco com Alckmin. A escolha de Afif como ministro também aproxima Dilma de empresários paulistas até então refratários ao PT.

Após o evento, antes de embarcar para Brasília, Dilma encontrou-se com Afif, o vice-presidente Michel Temer e Kassab para definir a nomeação. Na conversa, Afif avisou à presidente que permaneceria no governo de Geraldo Alckmin.

No cálculo político de Dilma estão ainda o peso e o tamanho da bancada do PSD no Congresso: são 48 deputados em exercício e dois senadores, essenciais para aprovação de matérias de interesse do governo federal.

A escolha de Afif, segundo interlocutores de Dilma, foi cuidadosamente articulada para seduzir e potencializar a ligação do Planalto com o setor produtivo mais ligado à classe média. Com Afif, o governo espera desenhar e lançar programas para essa faixa de eleitorado com grande poder multiplicador.

A entrada de Afif no governo é mais um passo do roteiro traçado para reeleger Dilma. Este mesmo processo fez com que a presidente deixasse de lado a "faxina" anunciada no início de seu governo, com a saída dos ministros Carlos Lupi, do Trabalho, e Alfredo Nascimento, do Transportes, reabilitando os grupos afastados naquela época. Pela campanha de 2014, a presidente também fortaleceu o PMDB em seu governo, atendendo diferentes alas do partido com as alterações nos ministérios da Agricultura e Aviação Civil. Dilma estava determinada a atrair o PSD para o governo. Kassab tem afirmado que se trata de uma escolha pessoal da presidente.

A Secretaria da Micro e Pequena Empresa, que terá status de ministério, deverá auxiliar na elaboração de políticas de estímulo ao microempreendedorismo. As competências do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior referentes à microempresa e à empresa de pequeno porte serão transferidas para a nova secretaria.

Revisionismo. "Aproveito essa cerimônia para homenagear cada um de vocês. Um brasileiro que colocou na pauta do País o apoio às micro e pequenas empresas, fazendo com que reconhecêssemos que a questão dos micronegócios é estratégica e imprescindível para o futuro e o presente do País", disse Dilma, num rasgado elogio a Afif na cerimônia na Associação Comercial que será presidida pelo empresário Rogério Amato, filho de Mário Amato. Na campanha presidencial de 1989, quando presidia a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mário Amato disse que 800 mil empresários deixariam o País caso Lula fosse eleito. O petista perdeu a eleição para Fernando Collor de Mello.

Ao lado de Dilma, dividindo o palco com o vice-presidente Temer e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin discursou mas não fez nenhuma menção a Afif. O tucano assistiu à presidente Dilma tecendo elogios ao incômodo inquilino do Palácio dos Bandeirantes. A presidente disse que o vice-governador, "como liderança e protagonista", teve "participação decisiva" para levar o micronegócio à pauta nacional. Citou a atuação de Afif na aprovação do Estatuto da Microempresa, do Simples Nacional e da Lei do Microempreendedor Individual. Afif estava na plateia com Kassab e não discursou.

Criticada pela criação de mais um ministério, Dilma afirmou que a nova secretaria "é essencial para o País". "É necessário que passemos por esse período em que haverá um ministro olhando só para a questão dos pequenos negócios."

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