Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Chile, EUA e Israel serão primeiros destinos oficiais de Bolsonaro

Últimos presidentes eleitos mantiveram tradição de viajar inicialmente à Argentina; sinais indicam que Mercosul deixa de ser prioridade

O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2018 | 13h26
Atualizado 29 de outubro de 2018 | 22h39

O presidente eleito Jair Bolsonaro escolheu Chile, EUA e Israel como os destinos de sua primeira viagem internacional. Mesmo sem ter anunciado o futuro chanceler, o roteiro indica a preferência por parceiros comerciais que compartilham sua visão de mundo. Bolsonaro prometeu durante a campanha adotar uma política externa não ideológica. 

O Chile, governado pelo empresário Sebastián Piñera, será o primeiro destino. A escolha rompe uma tradição recente de idas dos chefes de Estado à Argentina, o principal parceiro do Brasil no Mercosul, visitado por Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Michel Temer foi à China após herdar o cargo de Dilma, enquanto Fernando Henrique Cardoso visitou o Uruguai em 1995 e Portugal em 1998. 

Segundo o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que será o ministro da Casa Civil, o país transandino foi escolhido por ser “a grande referência latino-americana”.

“Quem deu certo nos últimos 20 anos, aumentou a renda de sua população, tem boa educação, gera tecnologia e hoje comercializa com o mundo todo? O Chile. Então, tem que ter humildade de ver esse exemplo com atenção”, disse.

Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, lecionou na Universidade do Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet, que concretizou privatizações e mudanças radicais no sistema de previdência chileno. Os EUA são uma escolha natural, pela proximidade do presidente eleito com a linha política de Donald Trump. A relação de Bolsonaro com Israel ficou mais próxima desde que se tornou evangélico – ele tem entre seus apoiadores empresários da comunidade judaica. 

Para o diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, a escolha dos destinos de Bolsonaro é natural. “A gente vai ter que se acostumar no Brasil que na política brasileira a gente tem um grupo que é de direita. A gente nunca teve no Brasil um grupo que se assume de direita como ideologia, tanto na política interna, externa, nos costumes e na economia”, disse ao Estado. “Então, dentro do que ele vem pregando, é o normal.”

Na noite de domingo, Guedes disse a uma repórter do jornal Clarín que o Mercosul não estava em primeiro plano. “Não, a Argentina não é uma prioridade. O Mercosul também não é prioridade. É isso que você queria ouvir? Você está vendo que esse meu estilo combina com o do presidente, não é o que você quer ouvir, é a verdade. A gente não está preocupado em te agradar”, disse, exaltado.

Nesta segunda-feira, 29, Bolsonaro comentou o episódio. “Ninguém quer implodir o Mercosul, mas queremos dar a devida estatura para ele. Queremos nos livrar de algumas amarras do Mercosul”, afirmou em entrevista à rede Record, ao ser questionado sobre o tom de Guedes.

A amarra imposta pelo formato do Mercosul era uma crítica feita pelo senador José Serra (PSDB-SP) antes de tornar-se chanceler do governo de Michel Temer. Ele defendia que o bloco sofresse uma espécie de “downgrade” e deixasse de ser uma união aduaneira, como é hoje, para ser uma zona de livre comércio. 

O governo argentino recebeu com cautela a escolha do Chile como primeiro destino de Bolsonaro. “Precisamos esperar que os ministros designados assumam seus cargos, comecem a trabalhar, tomem medidas e façam declarações oficiais”, disse ao Estado o ministro de Produção e Trabalho da Argentina, Danta Sica. Questionado se o Chile poderia roubar o protagonismo da Argentina como parceira política comercial histórica, Sica respondeu “acho que não”. /CONSTANÇA REZENDE, LUIZ RAATZ, LUCIANA DYNIEWICZ e LU AIKO OTTA

 

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