Valério afirma que 'Lula era o chefe' e mensalão usou R$ 350 mi, diz revista O QUE ELE DIZ SABER

Contra-ataque. Apontado como 'operador' do esquema, réu considerado culpado pelo Supremo tem contado a interlocures que ex-presidente acertava doações clandestinas com empresários e foi 'protegido' pelo silêncio dele, de Delúbio e Dirceu, segundo 'Veja'

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h06

Condenado por peculato, lavagem de dinheiro e corrupção ativa no julgamento do mensalão, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza tem dito a interlocutores que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chefiava o esquema do mensalão e que a movimentação de recursos seria maior que o descoberto nas investigações do caso, segundo reportagem da revista Veja.

Conforme o texto publicado ontem, o empresário diz que o pagamento de propina a políticos da base aliada do governo movimentou R$ 350 milhões, por meio de doações clandestinas avalizadas pelo próprio ex-presidente e aliados próximos.

Ontem, ao participar de comícios pela manhã em Feira de Santana (BA) e à noite em São Paulo, Lula não fez nenhuma menção ao teor da reportagem. O presidente nacional do PT, deputado estadual Rui Falcão (SP), disse que "já começaram as baixarias, as mentiras, as acusações falsas" contra o partido, mas não mencionou casos específicos.

De acordo com a reportagem de Veja, o PT obteve desde 2005 o silêncio de Valério em troca de promessas de adiamento do julgamento ou punição mais branda no Supremo Tribunal Federal. Depois da série de revezes na Corte, que podem levá-lo a uma pena alta na prisão, o empresário narrou, segundo interlocutores, que outras empresas, além de suas agências, contribuíam diretamente ao PT em troca de vantagens no governo - a reportagem não cita nomes. Segundo ele, Lula seria o "fiador" dessas negociações, operadas e registradas num livro pelo ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares.

"Lula era o chefe", teria dito Valério. "Não podem condenar apenas os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio e o Zé não falamos", referindo-se ao ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu.

Valério relatou ter tido encontros com Lula no Palácio do Planalto com Dirceu, acusado pela Procuradoria-Geral da República de chefiar o esquema do mensalão. "Do Zé ao Lula, era só descer a escada", disse. A Casa Civil fica no quarto andar, um acima do gabinete da Presidência.

Outro encontro teria ocorrido no Palácio da Alvorada. O empresário teria sido levado à residência oficial por Delúbio.

Valério contou que os empréstimos do Banco Rural às suas agências só foram autorizados pelo ex-presidente da instituição, José Augusto Dumont, porque Lula deu aval. "Você que é um banqueiro, você nega um pedido do presidente da República?", questionou, conforme a Veja. Com ajuda do Planalto, o empresário teria sido recebido no Banco Central para negociar a suspensão da liquidação do Banco Mercantil de Pernambuco, cuja massa falida era de interesse do Rural.

Advogados. O advogado Marcelo Leonardo, que defende Marcos Valério, afirmou ontem que a reportagem diz que "as informações teriam origem em declarações de amigos, familiares e associados". "Ele disse para mim que não deu nenhuma entrevista e não confirma o conteúdo da matéria", afirmou.

A revista informa que Valério não quis dar entrevista, mas não desmentiu o teor da reportagem. Questionado se era o caso de processar Veja, Leonardo afirmou: "Pelo estilo da revista, não precise ou mereça".

O advogado de Dirceu, José Luís de Oliveira Lima, disse "achar esquisito, para dizer o mínimo", a publicação da reportagem às vésperas do julgamento do ex-ministro, previsto para começar amanhã. Para defender o cliente, Oliveira Lima desqualifica o texto publicado: "A Veja apresenta uma matéria fraca, leviana, desprovida de fatos concretos, num exemplo de péssima conduta jornalística, onde nem se sabe quem está falando".

Segundo a reportagem, Valério tenta manter hábitos como levar o filho à escola, mas "teme por sua vida". Veja diz que o empresário teria combinado seu silêncio com Paulo Okamotto, hoje presidente do Instituto Lula, em uma série de encontros desde que o escândalo veio à tona, em 2005. Em uma ocasião, quando o empresário estava preso, sua mulher, Renilda Santiago, teria procurado o petista para que o PT intercedesse por sua libertação. "Ele deu um safanão na minha esposa", teria dito Valério.

Procurado, o Instituto Lula não se manifestou sobre o caso.

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