Uso do mensalão como arma eleitoral se espalha por campanhas nas capitais

A série de condenações no Supremo Tribunal Federal atropelou os planos do PT de manter o mensalão distante das eleições municipais. O tema já está presente em pelo menos metade das disputas das capitais e tende a se alastrar com o julgamento do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu às vésperas do 1.º turno, em 7 de outubro.

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h08

O embate que opõe petistas e aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos partidos de oposição capitaneados pelo PSDB já apareceu, na TV ou em discursos públicos de campanha, em 13 capitais, segundo levantamento realizado pelo Estado. O mensalão só é ignorado em cidades nas quais o partido de Lula não tem candidato ou o nome do PT não se mostra competitivo.

A participação de Lula em comícios de aliados também faz o tema emergir. Apesar de o ex-presidente não ter tocado no assunto nos palanques pelos quais passou até agora, seus adversários aproveitam a visita do petista para utilizar o julgamento do Supremo como arma política.

Na semana passada, o mensalão apareceu pela primeira vez na campanha de Salvador. Líder nas pesquisas, ACM Neto (DEM), um dos principais nomes da oposição na CPI dos Correios, que investigou os repasses de dinheiro do valerioduto, passou a explorar o escândalo assim que Lula deixou a capital baiana.

Em entrevista a uma rádio, o neto de Antonio Carlos Magalhães disse que "todo mundo sabe" que Nelson Pelegrino é "amigo fraterno" do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, também réu no mensalão, e de Dirceu.

Com a posterior visita de Lula a Manaus para dar apoio à candidata do PC do B, Vanessa Grazziotin, o ex-senador Arthur Virgílio (PSDB) afirmou que o ex-presidente deveria estar mais preocupado com o julgamento no Supremo do que com a eleição.

O mesmo aconteceu em Belo Horizonte. Após comício no fim de agosto em defesa da candidatura de Patrus Ananias (PT), o senador Aécio Neves (PSDB), que apoia a reeleição do prefeito Márcio Lacerda (PSB), aproveitou para usar o julgamento no Supremo tão logo o ex-presidente passou por lá. "O PT se apropria de empresas públicas, como está comprovado pelo STF", disse.

Mas é na capital paulista onde os ataques ao candidato do PT, Fernando Haddad, têm sido mais intensos. As críticas da campanha do tucano José Serra começaram de maneira indireta, chamando de "bilhete mensaleiro" a proposta do petista de criar o Bilhete Único Mensal, até culminar em um depoimento do próprio Serra na TV, no Dia da Independência, no qual o tucano afirma que o STF estava "mandando para a cadeia um jeito nefasto de fazer política".

A equipe de Serra escalou também o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para abordar o tema em uma propaganda em apoio ao candidato. Na mais recente peça de propaganda, Serra sugere que a eleição de Haddad traria de volta à vida pública Delúbio e Dirceu. Os petistas tentaram, em vão, obter um direito de resposta sob o argumento de que a propaganda era "degradante".

A preocupação do PT e de Lula com a perda de controle sobre o tema mobilizou o PT, que, ao lado de outros partidos da base aliada, decidiu divulgar uma nota na qual compara o uso do mensalão nas campanhas eleitorais a uma tentativa de "golpe".

A nota oficial foi articulada pelo próprio ex-presidente, receoso não só com as consequências eleitorais da investida dos partidos de oposição mas também com a preservação de seu legado.

Duda Mendonça. O assunto também está na ordem do dia em Fortaleza, Vitória e Goiânia. Na capital do Ceará, o candidato do PT, Elmano de Freitas, que está tecnicamente empatado em primeiro lugar com outros dois adversários, virou alvo por ter contratado como marqueteiro de sua campanha um dos réus do mensalão: o publicitário Duda Mendonça, acusado de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Em Vitória, a ex-ministra Iriny Lopes (PT) trocou farpas em programas de rádio com o candidato do PSDB, Luiz Paulo. A propaganda do tucano fez um alerta para que o eleitor não votasse "em candidata do partido que está envolvido até o pescoço com mensalão". A petista se defendeu dizendo que quem discute o mensalão é o Supremo.

Já em Goiânia, imagens de Dirceu e Delúbio foram usadas pela campanha do candidato Jovair Arantes (PTB) para relacionar o adversário e candidato à reeleição Paulo Garcia (PT) aos réus do julgamento. Em João Pessoa, Recife e Porto Alegre o mensalão foi usado em debates pelos candidatos. Campanhas de Cuiabá, São Luís e Curitiba também exploraram o assunto.

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