Felipe Frazão/AE - 16.06.2012
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Único réu candidato, João Paulo diz querer discutir mensalão nas eleições

Na disputa pela Prefeitura de Osasco, ex-presidente da Câmara afirma que marcar análise do caso em agosto é 'disputa política' com PT e não teme uso do escândalo pela oposição

Felipe Frazão, de O Estado de S.Paulo

18 Junho 2012 | 03h04

Único dos 38 réus do mensalão a disputar as eleições municipais de outubro, o deputado João Paulo Cunha (PT) diz não querer esconder o principal escândalo do governo Lula de sua campanha a prefeito em Osasco, seu reduto político na Grande São Paulo. Ex-presidente da Câmara, João Paulo promete discutir nas ruas o processo que será julgado pelo Supremo Tribunal Federal em agosto, no qual foi denunciado por corrupção, desvio de verba pública e lavagem de dinheiro. Quer fazer isso antes que a oposição o faça.

"Durante a campanha, a oposição não vai precisar falar do mensalão, porque eu vou falar. Ela pode ficar sossegada, porque vou na frente falando para a população o que foi o processo do mensalão", disse João Paulo ao Estado em seu escritório político de Osasco, na sexta-feira.

No sábado, o deputado tocou veladamente no assunto ao discursar na convenção da coligação 100% Osasco, de PRTB, PT do B, PTC e PTN (quatro das quase 20 siglas que costuram apoio ao petista). "Vocês sabem das minhas dificuldades. Se eu pudesse pedir um desejo a Deus, eu pediria para ninguém ter constrangimento e qualquer problema comigo. Deixar o problema só comigo, porque Deus nunca dá o peso a quem não consegue carregar. E eu saberei carregar o tamanho do peso que eu tenho", bradou o deputado, sob aplausos de militantes do Jardim Piratininga, zona norte de Osasco.

João Paulo ainda não decidiu como vai debater o mensalão. Em 2006, quando fez campanha e se reelegeu deputado, diz ter mantido diálogos em tendas nas ruas. Agora, tenta convencer o diretório do PT na cidade: "Temos de falar da cidade e do mensalão. Não podemos esconder."

Acusação. Em 2006, João Paulo foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e peculato. Ele teria recebido R$ 50 mil de forma ilegal do publicitário Marcos Valério. Depois, teria favorecido a empresa dele em um contrato da Câmara. A mulher de João Paulo, Márcia Regina Cunha, sacou a quantia numa agência do Banco Rural em Brasília. A defesa nega os crimes. À Justiça, alega que ele não sabia a origem do dinheiro e não ocultou o destino, tendo pago um instituto de pesquisa. Tampouco teria favorecido Valério.

João Paulo diz que, em 2004, pediu dinheiro ao então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para pagar pesquisas eleitorais em Osasco. E que seguiu sua orientação para sacar os R$ 50 mil - prática normal na política, afirma.

Redenção. Mesmo depois de o caso vir a público, em 2005, João Paulo conseguiu se reeleger duas vezes, em 2006 e 2010. Chegou a ocupar a presidência da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). Mas avalia que sua honra está em jogo. João Paulo considera a eleição a prefeito uma chance de recomeço de sua vida política.

Ele tentará a dupla absolvição: primeiro, ser inocentado pelo Supremo. Depois, o novo teste das urnas. E dar continuidade à gestão de Emídio de Souza (PT). "O mensalão será uma preocupação do PT em todo o País, não só em Osasco. Mas não trabalhamos com plano B", disse Emídio, confiante na absolvição.

João Paulo circula em Osasco como celebridade. Diz que as pessoas acompanham sua vida e podem defendê-lo. Em seu reduto, zona norte de Osasco e periferia, o sentimento é de que o mensalão não vai pegar na eleição.

Segundo pesquisa local, João Paulo tem 26% das intenções de voto, atrás do deputado estadual e ex-prefeito Celso Giglio (PSDB), com 34%, e à frente do vereador Osvaldo Vergínio (PSD), que tem 10%. Ao mesmo tempo em que precisa convencer 11 ministros do STF de sua inocência, João Paulo terá de mostrar a mais de 540 mil eleitores que sua carreira política ainda tem um sentido.

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