Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'União da esquerda no primeiro turno não está colocada', diz Guilherme Boulos

Para pré-candidato do PSOL à Presidência, partidos do mesmo campo ideológico devem se aliar somente na 2ª etapa das eleições

Entrevista com

Guilherme Boulos

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 01h00

Depois de 15 anos de militância no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), o líder social Guilherme Boulos, de 35 anos, se filiou ao PSOL nesta semana para disputar a Presidência da República. Ele concorre com outros dois nomes, em convenção partidária, à indicação da legenda.

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Se confirmado, deve ser o quarto pré-candidato apresentado pelos partidos de esquerda. Alguns deles ainda acreditam em uma unidade já no primeiro turno da disputa presidencial. Em entrevista ao Estado, na última sexta-feira, 9, Boulos descartou completamente essa possibilidade. “Isso não está colocado. A esquerda tem unidades e pontos de diferença”, afirmou.

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Ao polarizar com Jair Bolsonaro, o senhor não faz o jogo dele?

Ele não deve ser tratado como concorrente, mas como criminoso. Ela faz apologia ao estupro, defende tortura em meio ao Congresso Nacional, faz falas racistas. Se o Código Penal fosse levado a sério, Bolsonaro estaria preso e não candidato a presidente. Enfrentar o Bolsonaro não é uma questão eleitoral, é questão de princípio.

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É possível uma união eleitoral das esquerdas ainda no primeiro turno?

Isso não está colocado. A esquerda tem unidades e pontos de diferença. Ela tem unidade na democracia, o que implica o direito de o Lula ser candidato, contra as reformas do Temer e deve expressar isso, mas também tem diferenças de projeto, de análise, de balanço do País e de onde queremos chegar.

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A pulverização de candidatos não cria o risco de a esquerda ficar de fora do segundo turno?

Não acredito que depois do fracasso do governo Temer o povo brasileiro vá botar candidaturas de direita no segundo turno. Acredito que estarei no segundo turno e qualquer candidatura do campo de esquerda que lá esteja, a minha ou qualquer outra, deve, sim, buscar a unidade.

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O PSOL fechou uma aliança com o PCB. Com quem mais o partido está negociando?

Vamos construir uma aliança de um novo tipo. Tem PSOL, tem PCB, mas é uma aliança com os movimento sociais. Tem uma série de movimentos e figuras da sociedade civil que estão levando a sério isso. Por isso não é um projeto apenas partidário. É uma aliança com vários setores da sociedade. Essa é a inovação que estamos construindo

Setores do PSOL ficaram irritados com sua proximidade com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O PSOL tem pluralidade, posições, diferenças. Se for o indicado na convenção, vou dialogar com todo o partido.

É este formato que deve ter a esquerda pós 2018?

Isso é o que eu defendo. Tenho buscado construir isso com muita gente. Um projeto que concilie o pé no barro das periferias com o resgate da esperança. Hoje há uma esperança generalizada na política brasileira. As pessoas não enxergam mais saídas pela política e elas têm razão porque o sistema político é muito mais aberto às grandes corporações e fechado à participação popular.

Você é um pré-candidato apolítico ou antipolítico?

Não. Ao contrário. Acho que quem está querendo se apresentar como antipolítico está fazendo isso da maneira mais farsesca. Essa vestimenta de antipolítico em geral é pura hipocrisia.

O que diferencia a sua candidatura da do Lula?

Existem muitas diferenças. O Lula já construiu uma trajetória. Ele representa este legado da sua trajetória. Eu milito há 15 anos no movimento social, não tive nenhuma experiência institucional e represento um projeto que reconhece os avanços do governo Lula, mas, ao mesmo tempo, questiona os limites destes avanços. Não foram enfrentados os privilégios fundamentais. Por uma aposta de um governo de conciliação. Não acredito que seja possível reeditar essa aposta.

E quem deve ficar de fora?

Não há mais margem de manobra para ganha-ganha no Brasil. Para avançar nos direitos sociais é preciso enfrentar os privilégios. Não é uma questão de excluir alguém, mas de tomar lado. O 1% que sempre mandou no Brasil, essa turma vive num capitalismo da casa grande, num mundo de fantasia. O lema deles é privatizar lucros e socializar prejuízos.

Qual será o papel do MTST em uma eventual campanha sua?

Sou dirigente do MTST. A filiação ao PSOL e o debate sobre meu nome foram aprovados. Não caminho sozinho. Evidentemente o MTST numa campanha defenderá este projeto.

Isso não pode deslegitimar a luta do MTST? As ações por moradia não serão confundidas com ações eleitorais?

O MTST preservará sua autonomia completa. Sou o único da direção que se filiou.

Você pretende fazer privatizações?

As privatizações não são solução. Temos várias experiências que mostram isso. Nas rodovias não cumpriram metade das obras e aumentaram os pedágios acima dos contratos. Não vamos apenas interromper as privatizações, vamos renacionalizar empresas privatizadas.

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