UNE cria grupo para apurar mortes de líderes estudantis

Entidade instala hoje sua comissão da verdade; levantamento aponta 46 mortos e desaparecidos durante a ditadura

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2013 | 02h06

A União Nacional dos Estudantes (UNE) instala oficialmente, hoje, no Recife, a sua própria comissão da verdade. Segundo o presidente da entidade, Daniel Iliescu, ela vai investigar inicialmente casos de dirigentes estudantis mortos e desaparecidos no período da ditadura militar, entre 1964 e 1985. "Levantamentos preliminares indicam que são 46 dirigentes, incluindo universitários e estudantes secundaristas", disse ele ao Estado.

A cerimônia de instalação da comissão deve ocorrer durante a abertura da reunião do Conselho Nacional de Entidades de Base, na Universidade Federal de Pernambuco. O atual coordenador da Comissão Nacional da Verdade, o procurador da República Cláudio Fonteles, deverá participar da cerimônia como convidado de honra.

Fonteles tem estimulado a formação de comissões setoriais em todo o País. Além de investigar e esclarecer os casos de mortos e desaparecidos, acredita o coordenador, essa rede nacional pode propiciar o surgimento de uma rede permanente de proteção da democracia no País. "Essa rede deve ser perene, não pode terminar nunca e sei que a UNE será uma grande aliada nesse sentido", disse Fonteles em entrevista publicada ontem no site da entidade de representação estudantil.

Na mesma entrevista ele defendeu que a documentação reunida pela Comissão Nacional da Verdade seja reunida num centro permanente de pesquisa sobre a democracia.

Paulo Vannuchi, ex-ministro de Direitos Humanos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também participará da cerimônia no Recife. Ele foi convidado para orientar o trabalho de pesquisadores e estudantes que integrarão a comissão.

A presença de Vannuchi na cerimônia também se deve à vontade da atual direção de UNE de homenageá-lo. "Ele foi o protagonista de uma intensa disputa de opinião que ocorreu no interior do governo Lula e teve um papel fundamental na instalação da Comissão da Verdade", disse Iliescu.

Trata-se de uma referência ao confronto entre Vannuchi e o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, que ameaçou renunciar ao cargo caso a comissão fosse instalada de acordo com a proposta feita por Vannuchi. Na época, Lula recuou e formou uma comissão, com a participação de Jobim, para a rediscussão do assunto e a preparação de um projeto de lei que seria enviado ao Congresso. O projeto foi aprovado em novembro de 2011, no governo de Dilma Rousseff, e a comissão começou a funcionar em maio do ano passado.

Na cerimônia de hoje, a UNE vai prestar uma homenagem especial a Honestino Guimarães, estudante de geologia que presidiu a entidade após a repressão ao seu 30.º Congresso, em Ibiúna (SP), em 1968. Perseguido pelas autoridades militares, ele se viu obrigado a viver na clandestinidade. Preso por agentes da Marinha, no Rio, em 1973, nunca mais foi localizado.

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