Uma primeira-dama que evitou ser peça decorativa

Aos 88 anos, viúva do governador Abreu Sodré não resistiu a uma insuficiência cardíaca

O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2012 | 03h11

Memória

O gosto pela política, pelos debates, pela música erudita e por boas histórias foi uma das marcas, a vida inteira, da ex-primeira-dama Maria do Carmo Mellão de Abreu Sodré. Ao morrer ontem, aos 88 anos, a viúva do governador Abreu Sodré deixou, nas palavras de sua filha Maria do Carmo, a imagem de "uma pessoa ativa, interessada, culta e que, acima de tudo, gostava de se sentir útil".

Um exemplo disso, lembra a filha, foi o entusiasmo com que ela mergulhou, nos anos 80, na campanha das Diretas Já. "Ela batalhou bastante, não em público, mas em reuniões com amigos, em clubes, com a família, onde quer que estivesse", acrescenta Maria do Carmo.

Outro exemplo, lembrado por velhos amigos, foi o gosto com que se atirou no trabalho de assistência social como presidente do Fundo de Solidariedade Social, que ela própria estimulou o marido a criar assim que assumiu o governo paulista em 1967. "Serei uma secretaria sem pasta", brincava ela ao assumir a entidade que, desde en tão, tornou-se uma das marcas do governo paulista. "Nossa missão não será ficar só distribuindo alimentos ou inaugurando creches, mas dar condições às pessoas de poderem elas próprias se ajudar", explicava ela ao ser empossada.

A última coisa que admitia era ser, ao lado do marido governador, uma figura decorativa. Tinha opiniões fortes e discutia a situação política, muitas vezes discordando, nas conversas caseiras, do próprio marido - que havia sido nomeado para o Palácio dos Bandeirantes pelo regime militar.

Seu pai, João da Cruz Mellão, era fazendeiro no interior de São Paulo e criou o Banco America do Sul - mais conhecido, então, como Brasul. Tinha dois irmãos e, como eles, foi convocada para trabalhar no banco.

Graças a isso, quando se tornou presidente do Fundo de Solidariedade Social, já tinha uma boa experiência de gestão. Tempos depois, já na redemocratização, o marido se tornou chanceler, de José Sarney. "Ela ficou um tempo em Brasília mas acabou voltando a São Paulo, para cuidar de suas coisas no escritório", recorda a filha.

Sua morte "não foi uma surpresa", diz Maria do Carmo. Com a saúde abalada nos últimos tempos, principalmente pela diabetes, a ex-primeira-dama não sobreviveu a uma insuficiência respiratória. Velada no Funeral Home, ela foi sepultada ontem à tarde no cemitério da Consolação - e entre as figuras que a acompanharam estavam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o médico Dráusio Varela e Arnaldo Jabor, cineasta e colunista do Estado. Além de Maria do Carmo ela deixa outra filha, Ana Maria, e sete netos.

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