Um rio de antagonismo nas eleições 2014

Um rio de antagonismo nas eleições 2014

Deputados Jean Wyllys e Jair Bolsonaro expõem os extremos ideológicos na disputa fluminense pela Câmara

Luciana Nunes Leal e Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2014 | 03h00

Atualizado às 15h35

Ao fim de duas horas de debate com o tema “Estado Laico, Direitos Humanos e Diversidade”, jovens fazem fila para conversar, abraçar e posar para fotos com o deputado federal Jean Wyllys (PSOL). Alguns se emocionam, outros querem saber como ajudar na campanha de reeleição do jornalista e professor que virou celebridade ao vencer o programa Big Brother Brasil de 2005 e que, na política, se destacou pela defesa da comunidade gay e pelo enfrentamento ao “fundamentalismo religioso”.

Escolhido por pouco mais de 13 mil eleitores em 2010 e eleito graças à ampla votação do companheiro de partido Chico Alencar, Jean agora é uma aposta do PSOL para ajudar a puxar votos e eleger mais um deputado. Mas mantém cautela.

“Fiz a opção difícil de lutar pelos direitos humanos dos grupos que não têm sequer sua humanidade reconhecida, vítimas de preconceitos atávicos, LGBT, povos indígenas, negros, pobres, profissionais do sexo, população carcerária. Sou alvo de difamação sistemática por causa disso e minha reeleição não está garantida. Sou homossexual assumido e com orgulho da minha homossexualidade. Só isso já é motivo para muita gente não votar em mim”, diz, desta vez na Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), na zona sul da capital.

Panfletagem na rua é atividade rara na campanha de Jean, que completou 40 anos em março. Ele prefere debates, principalmente em universidades, e já fez 18 comícios domiciliares. Nessas ocasiões, além da atuação política, fala um pouco mais sobre a própria história. “Nasci na periferia de Alagoinhas, na Bahia, aos 10 anos eu trabalhava para ajudar em casa”, conta. No registro da candidatura, o deputado declarou ter patrimônio de R$ 1.192.835,64. O aumento patrimonial é de 222% em relação a 2010, quando declarou R$ 370 mil.

De acordo com o candidato, o aumento é em razão do financiamento de um apartamento, cujo valor mensal é de R$ 4 mil. "O preço de um aluguel que qualquer pessoa com minha formação e com meu trabalho de professor universitário pode pagar; pois estou deputado, não sou deputado", informou Jean em nota. "O aumento do patrimônio é, portanto, uma dívida. Acontece que o TRE divulga o valor do patrimônio adquirido via financiamento, mas não divulga a dívida, ou seja, não diz que ele é financiado", concluiu.

Entre os projetos apresentados por Jean neste primeiro mandato estão o casamento civil igualitário, a regulamentação da prostituição, a regulação da produção e consumo da maconha e a lei de identidade de gênero. “Fui difamado, recebi ameaças de morte, as pessoas distorcem o sentido de minhas propostas”, reclama Jean. O deputado diz que, entre seus maiores difamadores, estão o colega Jair Bolsonaro (PP-RJ) e os filhos, Flávio, deputado estadual, e Carlos, vereador. “Eles fazem campanha sistemática e espalham mentiras sobre mim”, reclama.

Redes sociais. Com apenas R$ 1 mil de doação até agora, contribuição de uma eleitora, o deputado usa as redes sociais como principal ferramenta de divulgação de seu mandato e, agora, da campanha. Há duas semanas, Jean usou o Twitter para elogiar a candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, pelo programa de governo que defendia temas de interesse da comunidade LGBT. E criticou o recuo da ex-ministra no dia seguinte. “Cheguei a pensar que Marina poderia arrastar a campanha eleitoral para um campo progressista e do discernimento. Quando ela cedeu, foi uma decepção tremenda”, diz Jean, que faz campanha para a candidata do PSOL, Luciana Genro.

O deputado, entretanto, comprou algumas brigas no PSOL. Com outros parlamentares da sigla no Rio, assinou carta aberta com críticas à candidatura a deputado federal do Pastor Jeferson Barros pelo partido. Jeferson foi barrado pela executiva estadual, mas teve aval da direção nacional para registrar a candidatura. O caso será julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Com fundamentalismo não pode ter diálogo, e ele (Jeferson) é fundamentalista”, sustenta Jean. O pastor nega que tenha atitudes homofóbicas e diz que os colegas de partido nem sequer conhecem sua história.

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Jair Bolsonaro: colecionador de polêmicas

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2014 | 02h00

RIO - Todo dia é dia de "direita, volver" para o militar da reserva e deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) - especialmente quando está em campanha eleitoral. Postado na esquina da Estrada do Portela com a Rua Dagmar da Fonseca, em Madureira, no subúrbio do Rio, o parlamentar mistura a pose de sentinela com sorriso amplo e opiniões polêmicas para tentar o sétimo mandato na Câmara.

É cumprimentado por eleitores nos intervalos da entrevista em que ataca o Bolsa Família, a Lei da Palmada, a Comissão Nacional da Verdade, o Decreto 8243 (que cria conselhos populares), os direitos humanos, a demarcação de terras indígenas e o governo Dilma Rousseff.

Bolsonaro, de 59 anos, começou na política em 1988, como vereador no Rio. Era capitão do Exército. Em 1990, elegeu-se deputado federal. Inicialmente, representava o movimento corporativo das Forças Armadas por salários. Logo incorporou uma agenda conservadora ampla, alinhando-se sempre à direita.

Rejeita doações: diz fazer campanha com recursos próprios e do partido, que, este ano, lhe deu R$ 200 mil para essa finalidade. Declarou à Justiça Eleitoral ter bens que somam R$ 2.074.692,43 - 150% a mais que os R$ 826.670,46 declarados em 2010.

O parlamentar é bélico com os inimigos da lista de temas polêmicos. Os conselhos populares, por exemplo, são "os sovietes", a Lei da Palmada "é uma interferência do Estado na educação dos nossos filhos", a Comissão de Direitos Humanos é "voltada para defender a vagabundagem". Quanto aos direitos dos homossexuais, Bolsonaro é enfático. "Não posso admitir que o filho dele (aponta para o fotógrafo do Estado) receba uma carta dizendo que é normal dois homens e duas mulheres." Sobre o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), ele o considera "um zero à esquerda".

Na conversa, Bolsonaro diz que votará no 1.º turno em Aécio Neves (PSDB) e, no 2.º turno, votaria até em "Fernandinho Beira-Mar". Mas torce o nariz para Marina Silva (PSB). "É uma esquerdinha."

Inquéritos. No Supremo Tribunal Federal, tramitam dois inquéritos contra o deputado. Um é por crime ambiental. Foi aberto porque o deputado foi flagrado pescando na Estação Ecológica de Tamoios, entre os municípios de Angra dos Reis e Paraty, no Rio, em 2013. O outro envolve racismo. Trata da sua polêmica com Preta Gil, que lhe perguntou no programa CQC, da TV Bandeirantes, o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma negra. Respondeu que não discutiria "promiscuidade" com ela.

Em sua defesa, o deputado alega, no primeiro caso, que tinha um documento do Ministério da Pesca liberando a pesca artesanal naquela região. Sobre a acusação de racismo, sustenta que houve edição de sua fala. A fita bruta teria sido apagada. Procurada, a emissora afirmou que não comentaria o episódio. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu o arquivamento do caso.

Ainda em sua defesa da acusação de racismo, Bolsonaro lembra o caso do recruta negro Celso Moraes Luiz, o Negão Celso. Ele conta tê-lo salvado de morrer afogado durante um exercício militar, em 1978, em Gericinó, no Rio. Pelo feito, o deputado requereu no ano passado a Medalha do Pacificador com Palma, concedida a militares que se expuseram a risco de vida. "Eu adoraria tê-la recebido por causa do Araguaia", dispara.

Há ainda um processo indenizatório no Fórum de Madureira, movido por entidades do movimento LGBT. Elas acusam o deputado de homofobia. Pedem R$ 1 milhão de indenização. O parlamentar conta que já sofreu "dezenas" de ações parecidas. Livrou-se da maioria.

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