Um mês após assumir gestão da Delta, J&F desiste de comprar empreiteira

Em menos de um mês, a holding J&F Participações desistiu de comprar a Delta Construções. O presidente da J&F, Joesley Batista, anunciou ontem o fim da negociação. Segundo ele, o motivo foi a "crise de confiança e credibilidade" gerada pela criação da CPI que apura os negócios do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e a suspeita de ligação do esquema com a empreiteira. A notícia foi antecipada na tarde de ontem pelo Estado.

FELIPE FRAZÃO, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h06

"Crise de credibilidade afeta materialmente os negócios de qualquer empresa. Queremos entrar num negócio que esteja funcionando e, por mais que esteja sob suspeita, tenha condições se defender", disse Joesley. "A holding não injetou recursos financeiros na Delta. Crise de confiança só se cura com confiança, não com dinheiro."

A cúpula da J&F - cujo conselho consultivo é comandado pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles - desistiu da operação na manhã de ontem. Joesley disse ter avisado por telefone o dono da Delta, Fernando Cavendish, que a holding não tinha mais interesse em assumir a construtora. Ele afirmou que Cavendish é "uma pessoa consciente" e entende a decisão.

"Não deu nada errado. Deu tudo certo. Creio que para a Delta também. Nós não voltamos atrás. Só demos um passo à frente. É que foi pela não conclusão (da compra). Tem hora de entrar, de avaliar e de decidir se faz o negócio ou não."

Por nota, a Delta confirmou o fim da operação de compra e venda e disse que a empresa permanecerá sob a administração anterior, com esforços para cumprir os compromissos assumidos.

O presidente da J&F disse que a Delta vinha sofrendo com atraso de pagamentos da ordem de 30% da receita média da empresa - a queda seria de R$ 200 milhões para R$ 140 milhões. E que, por isso, terá de fazer um controle rígido de caixa que põe a conclusão de obras em risco. "Acho que a Delta não vai conseguir manter obras em que o fluxo de pagamento não esteja em dia. No passado tinha crédito."

Levantamento da ONG Contas Abertas até 22 de maio indica que a União tem de pagar mais de R$ 700 milhões à Delta.

Planalto. No Palácio do Planalto, a notícia de que a compra da Delta pela J&F não foi recebida com surpresa. Para o governo, era uma questão de tempo para que o negócio naufragasse desde que a CPI do Cachoeira quebrou o sigilo da direção nacional da empresa, na terça-feira.

Semanas atrás, o governo divulgou nota dizendo que eram "falsas" as alegações de que a operação tinha aval do Executivo - ontem, não houve pronunciamento oficial. A Delta é responsável por contratos milionários do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), uma das principais plataformas políticas da presidente Dilma Rousseff.

O presidente da J&F reconheceu que a condição da Delta de "investigada" sem previsão de quando deixaria essa situação - reforçada pela quebra de sigilo da direção nacional - mudou o cenário em relação a 9 de maio. Foi nesse dia que a holding assinou um acordo para assumir a gestão da empreiteira e ter opção de compra dos ativos. Na época, a empresa já passava por processo na Controladoria-Geral da União (CGU), que poderia declará-la inidônea e fazer com que a Delta perdesse contratos com o poder público.

Para Joesley, antes a Delta era apenas "um apêndice" na CPI do Cachoeira. Ele disse que a Delta "provavelmente não vai ter nenhum problema" na investigação da CGU. "Um processo administrativo de inidoneidade é algo que qualquer empreiteira tem de estar preparada a suportar, porque faz parte do negócio de qualquer fornecedor público."

Procurada pela reportagem, a CGU afirmou ontem que não "presta informações sobre as providências e procedimentos de processos em andamento", mas manteve a previsão de concluí-lo no fim do mês. A Controladoria-Geral disse ainda que a desistência da J&F em comprar a Delta não interfere "em absolutamente nada" no processo em curso. / COLABORARAM EDUARDO MAGOSSI, EDUARDO BRESCIANI e RAFAEL MORAES MOURA

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