Um lugar para poucos: a agenda presidencial

A dura vida dos ministros que nunca foram recebidos no gabinete de Dilma e o prestígio dos que conseguem despachar quase todos os dias no Planalto

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h03

Adepta de pratos leves, a presidente Dilma Rousseff dá preferência a verduras e peixes em suas refeições. Ela, porém, parece ter com o pescado só a preocupação imposta pela dieta. Ao contrário de seu antecessor e padrinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma não parece ter o mesmo carinho pelo Ministério da Pesca. A pasta foi criada por Lula, conhecido por suas bravatas de pescador do bagre jaú.

Dilma manteve o ministério, mas demonstra pouco interesse na pasta, a julgar pelas suas agendas de trabalho. Levantamento feito pelo Estado nas 352 agendas oficiais da presidente entre 1.º de janeiro e anteontem, incluindo as programações de fins de semana, registra uma só audiência com o ministro da Pesca. Foi em 7 de janeiro, quando a titular da pasta era Ideli Salvatti, hoje ministra das Relações Institucionais.

O atual ministro da Pesca, Luiz Sérgio, que deu o lugar nas Relações Institucionais para Ideli e a sucedeu a partir de 13 de junho, jamais foi recebido pela presidente da República. Ideli e Luiz Sérgio trocaram de lugar durante a operação em que o ex-ministro Antonio Palocci cedeu espaço no comando da Casa Civil à senadora paranaense Gleisi Hoffmann. Palocci caiu depois de uma série de notícias sobre consultorias suspeitas a empresas enquanto exercia o mandato de deputado federal e, em 2010, coordenava da campanha eleitoral de Dilma.

Categorias. O exame das agendas da presidente mostra que há categorias bem diferenciadas nos 38 ministérios. No mesmo grupo em que está o da Pesca encontram-se os da Igualdade Racial e Assuntos Estratégicos. Luiza Bairros e Moreira Franco, titulares destas pastas, só foram recebidos por Dilma uma única vez até agora.

Luiz Sérgio e Luiza Bairros não quiseram fazer comentários sobre o pouco prestígio com a presidente. Moreira Franco informou, por intermédio de sua assessoria, que já despachou com a presidente fora da agenda por quatro vezes, antes das reuniões do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CNDES), quando mostrou os projetos estratégicos para o País nos quais está trabalhando.

A agenda da presidente não registra a presença do general José Elito de Carvalho (Segurança Institucional) nas audiências. Mas ele despacha com a presidente todos os dias, assim que ela chega ao Palácio do Planalto. Aldo Rebelo (Esportes), que tomou posse em 31 de outubro, esteve com Dilma uma vez. Orlando Silva, seu antecessor, foi chamado à sala da presidente da República nove vezes. Na mesma situação encontra-se Mendes Ribeiro (Agricultura), que foi recebido uma vez. Ele substituiu Wagner Rossi no dia 23 de agosto, que esteve com Dilma oficialmente por duas vezes e mais duas para explicar denúncias publicadas pela imprensa.

Quase no mesmo nível dos que só se encontraram oficialmente com Dilma uma única vez estão os ministros Ana de Hollanda (Cultura), Iriny Lopes (Mulheres), Garibaldi Alves (Previdência) e Mário Negromonte (Cidades). Eles foram recebidos duas vezes por Dilma.

A ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) está numa situação um pouquinho melhor. Foi recebida três vezes pela chefe, o mesmo número que Celso Amorim (Defesa). Mas Amorim pode dizer que tem mais prestígio, porque tomou posse somente em 8 de agosto, em substituição a Nelson Jobim, que teve sete encontros com Dilma.

Izabella Teixeira (Meio Ambiente), Carlos Lupi (Trabalho), que saiu no dia 4, e Paulo Sérgio Passos (Transportes), que entrou no dia 12 de julho, estiveram com Dilma cinco vezes cada um, segundo mostram as agendas oficiais da presidente.

De acordo com informações do Palácio do Planalto, as agendas oficiais registram os encontros marcados previamente com os auxiliares. Podem ocorrer reuniões fora da agenda. É o que ocorre, por exemplo, com os ministros que têm seus gabinetes no próprio Palácio do Planalto. Eles despacham com a presidente quase todos os dias. Ideli Salvatti, que na Pesca só falou com a presidente uma vez, agora a vê constantemente, por várias vezes ao dia. Nessa situação estão também Gleisi Hoffmann, Helena Chagas (Comunicação Social), Luís Inácio Adams (Advocacia-Geral), Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) e Jorge Hage (Controladoria-Geral).

Economia em alta. Numa outra ponta estão os ministros mais prestigiados. Guido Mantega (Fazenda) e Miriam Belchior (Planejamento) dão uma goleada nos outros. Cada um deles já esteve na agenda oficial de Dilma Rousseff por 28 vezes. Isso sem contar as viagens e as vezes em que a presidente os chama ao Planalto ou ao Palácio da Alvorada nos fins de semana, sem registro oficial.

Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) estiveram com Dilma por 11 vezes, segundo a agenda oficial da Presidência. Mas os dois viajam constantemente com Dilma tanto no Brasil quanto para o exterior.

Os ministros Fernando Haddad (Educação) e Edison Lobão (Minas e Energia) são habituais frequentadores do gabinete de Dilma. O primeiro esteve com a presidente 19 vezes, segundo a agenda oficial; o segundo, 17 vezes.

A ministra Tereza Campelo (Desenvolvimento Social) falou com Dilma oficialmente por 12 vezes. É ela quem cuida do Bolsa Família, mais importante programa social da gestão Lula, e do Brasil Sem Miséria, prioridade do atual governo e, pelo jeito, garantia de vaga à mesa com a presidente.

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