Um discreto técnico para o STF, a escolha de Dilma

Indicado para substituir Cezar Peluso, Teori Zavascki não é dado ao 'espetáculo', afirmam colegas

DÉBORA BERGAMASCO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h03

Ainda pequeno, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Teori Albino Zavascki saiu da catarinense Faxinal dos Guedes e foi sozinho para Chapecó (SC) estudar em colégio interno só para meninos, onde fundou seu próprio time de futebol, "Os Explosivos". Em resposta, adversários criaram "Os Extintores" e o primeiro jogo foi tão inflamado que a diretora mandou acabar com as duas agremiações. O camisa 11 dos Explosivos, se passar pela sabatina do Senado, assumirá agora a 11.ª posição no Supremo Tribunal Federal, onde, segundo amigos, atuará muito mais como extintor. Ao saber dessa passagem da infância de Teori, o ministro Castro Meira, presidente da 1.ª Seção do STJ, riu, surpreso: "Que paradoxal! Explosivo é tudo o que o Teori não é. Você nunca vai vê-lo batendo boca no plenário ou tentando impor sua opinião, ele é reservado e sereno".

A descrição de Meira sobre o estilo do colega bate com o perfil que a presidente Dilma Rousseff buscava para substituir o ex-ministro Cezar Peluso. Segundo um interlocutor direto da Presidência, a procura era por alguém "muito experiente, muito preparado tecnicamente, que fosse discreto e educado, fora do tribunal e nos julgamentos. Nada de espetáculo".

O ministro do STJ Napoleão Nunes Maia Filho já dá uma pista para quem quiser saber como ele vota: "Ele é absolutamente coerente, por isso previsível em suas posições. Costuma reproduzir suas decisões". Castro Meira acrescenta: "Ele se recusa a dar uma interpretação mais aberta da Constituição, como eu faço às vezes. Segue estritamente o que está escrito na lei". Advogados que frequentam seus julgamentos avaliam que ele costuma decidir mais a favor do Fisco e que é linha dura. Na esfera política, absolveu o ex-prefeito de Ribeirão Preto (SP) Antonio Palocci da acusação de improbidade administrativa. Mas condenou, pelo mesmo crime, o ex-prefeito de Joinville Luiz Henrique da Silveira, que hoje, aliás, é senador e participa da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que concluirá a entrevista e aprovação de seu nome depois das eleições.

Sobre CPI, Teori já decidiu como relator que a instauração desse tipo de investigação não deveria depender de aprovação prévia do plenário da Câmara Municipal, pois isso retiraria da minoria parlamentar esta prerrogativa constitucional.

Em seu gabinete decorado com bandeira do Grêmio, o descendente de italiano e polonês que não tem ideia do significado de seu nome (pronuncia-se Teorí) costuma despachar ouvindo Mozart, Beethoven ou Bach. De janeiro até agosto deste ano, ele recebeu 7.843 novos processos e julgou 10.882. No ano passado, chegaram à sua mesa 8.773 e foram sentenciados 8.036. Preocupado em evitar o clima de "já ganhei" a vaga no Supremo, ele continua frequentando as sessões e pedindo vista, como na última sessão, na quarta-feira.

Livros e seriados. Teori frequenta semanalmente a ponte aérea Brasília-Porto Alegre. Passa a semana em seu apartamento funcional tomado por livros na Asa Sul da capital federal. Lá, ele gosta de praticar caminhadas matinais pela vizinhança - antes sozinho, mas desde que foi indicado ao Supremo é acompanhado por seguranças. Não é dado a eventos sociais, então ocupa o tempo livre vendo sua série predileta, Two and a Half Men. Opta pelas reprises antigas que ainda passam na TV, ou assiste às temporadas que tem em DVD, porque ele achou sem graça a substituição de Charlie Sheen por Ashton Kutcher. Para acompanhar o ídolo americano politicamente incorreto, virou fã da nova série de Sheen, e anda se divertindo com Tratamento de Choque. Quando está de folga, gosta de viajar para o exterior ou acampar na beira do rio, dormindo em barraca.

Na capital do Rio Grande do Sul, a vida é mais agitada. De sexta-feira a domingo ele vai para o apartamento que divide com a mulher, a juíza federal Maria Helena Marques de Castro Zavascki. Companheira desde 2004, ela deu um breve intervalo nas sessões de quimioterapia e fez questão de estar ao lado do marido durante a sabatina no Congresso. Criado em família católica, ele mantém em casa uma Bíblia, que divide espaço com um exemplar do Evangelho Segundo o Espiritismo, religião de seus filhos. Mas não é de frequentar igreja. É no Sul onde ele sempre se encontra com seus três herdeiros: Alexandre, médico e alpinista; Francisco, advogado e alpinista, e Liana, advogada. Os dois que seguem a carreira do pai se defendem quando alguém pergunta se ter um pai ministro pode influenciar o resultado de uma ação. "Meu pai jamais poderia julgar um caso nosso, nem se quisesse. Nossos processos não começam nem no STJ, nem no STF", responde Francisco, de 32 anos.

As netas gêmeas, Mariana e Bruna, adoram quando o avô prepara churrasco, sua especialidade, sempre ao som de música típica gaúcha. Se algum comensal de seus espetos quer deixar a festa cedo, ele costuma brincar: "Já vai embora, secador?", alusão ao torcedor que vai ao estádio só para "secar" (torcer contra) o time adversário e sai de fininho ao ver que a intenção foi alcançada.

Tricolor. A metáfora futebolística é em nome de sua paixão, o Grêmio. Ele é membro conselheiro do clube, frequenta as reuniões e está feliz da vida com o comando de Luxemburgo. Ele e o presidente do clube, Paulo Odone, são amigos de longa data, quando ainda era estudante da Universidade Federal de Porto Alegre,

Teori começou a carreira como auxiliar no escritório de Odone. A relação deu certo e chegaram a ser sócios. Hoje, a amizade gira em torno da bola, quando os dois se juntam para torcer e discutir o futuro do time. O sócio ilustre já migrou sua cadeira cativa e a de seus filhos para a futura Arena Grêmio. Uma das raras ocasiões que o fazem chorar é quando o tricolor gaúcho conquista algum título importante. Aí, brotam lágrimas contidas.

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