Tucanos lançam candidatura de Aécio dois anos antes da disputa presidencial

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, lançaram ontem, durante evento do partido em Brasília, a candidatura do mineiro Aécio Neves à sucessão da presidente Dilma Rousseff em 2014. Em resposta, o senador tucano disse que "cumprirá seu papel", só não vai "queimar etapas".

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2012 | 02h10

A investida dos opositores ocorre em meio a uma nova investigação da Polícia Federal que colocou na berlinda assessores diretos de Dilma e de seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva. Também ocorre num contexto de fortalecimento político do governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, hoje aliado nacional dos petistas.

"A hora é já. É agora. O nome do PSDB, hoje, é do Aécio. A meu ver, desde já, ele tem de assumir suas responsabilidades, não de candidato, mas de líder do partido, para ele poder começar a percorrer o Brasil imediatamente", afirmou FHC em encontro com prefeitos tucanos eleitos.

"Aécio é o candidato da grande maioria do PSDB. Ele deve ser o presidente do partido, é o chefe que precisamos e o líder que desejamos. Não estamos diminuindo ninguém, mas Aécio é o candidato que o PSDB tem para presidente da República", disse Guerra. "Ele é defendido por 99% de todos os integrantes do PSDB."

As declarações dos tucanos foram combinadas momentos antes do encontro com os políticos eleitos. Seguindo seu roteiro, Aécio - que em outubro do ano passado admitiu concorrer ao Planalto em 2014 em entrevista ao Estado - disse estar preparado, mas ressaltou que "a candidatura deve ser decidida no amanhecer de 2014". "É hora de o PSDB ouvir o pulsar das ruas. Não se pode perder a coragem de enfrentar desafios", disse o senador, que já governou Minas por dois mandatos.

O lançamento é considerado natural pela direção tucana, visto que a candidatura de José Serra é improvável dada a derrota do ex-governador para Fernando Haddad (PT) na disputa pela Prefeitura de São Paulo.

Programa. As declarações de FHC, Guerra e Aécio sobre a candidatura foram dadas em entrevista à imprensa. Já ao falar aos prefeitos, o senador afirmou que pretende percorrer o Brasil para ouvir a população sobre educação, saúde, segurança, infraestrutura e outros assuntos a fim de que o PSDB possa fazer um programa de governo que fale "a língua dos brasileiros de todos os rincões".

Último a falar aos prefeitos eleitos, FHC disse que Aécio ainda não pode ser chamado oficialmente de candidato só por causa das restrições da lei eleitoral. "Aécio foi surpreendido quando nós dissemos que ele precisava liderar. Ele veio aqui e assumiu a liderança com a maior tranquilidade. Agora, não vamos falar em candidatura, não se pode. Mas, quando for o momento oportuno, ele vai dizer: 'É, eu aceito'".

Indagado se é possível ganhar de Dilma em 2014, FHC afirmou: "Ganhei de Lula por duas vezes, no 1.º turno. Quando Lula venceu, nas duas vezes ele foi para o 2.º turno. Dilma, que também goza de muita popularidade, também teve de disputar o 2.º turno".

Cientistas políticos ouvidos ontem pelo Estado afirmam que Aécio é, de fato, o nome mais forte do PSDB. Segundo o professor do Insper, Celso Melo, isso acontece porque outros quadros importantes estariam, de certa forma, "impedidos" de exercer esse papel. Ele cita como exemplo o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que tem sinalizado que pretende tentar a reeleição e não concorrer ao Planalto; e Serra, que teria perdido musculatura política após a derrota na corrida pela Prefeitura de São Paulo. "O Aécio é, neste momento, a única opção do PSDB. Se você perguntar até para os passarinhos nas ruas quem é o candidato do PSDB à Presidência, eles vão te responder que é o Aécio Neves", afirmou.

Marco Antonio Teixeira, professor da FGV, concorda que a derrota de Serra em São Paulo abriu espaço dentro do PSDB para lançar a candidatura de Aécio. Teixeira destaca ainda o momento econômico e político pelo qual passa o País. "Mais uma vez temos o governo envolvido em um escândalo de corrupção, sem falar que a questão econômica, que tem sido o principal sustentáculo do governo, começa a ser questionada (por causa da crise financeira internacional)", disse.

Rubens Figueiredo, do Centro de Pesquisas e Análises de Comunicação, diz que só a antecipação do lançamento de Aécio não será o suficiente para derrotar Dilma em 2014. "Aécio precisa criar um discurso alternativo que seduza essa classe que começou a consumir mais com o governo Lula-Dilma. Caso contrário, a menos que aconteça um cataclismo na economia, Dilma é a franca favorita." / COLABOROU ISADORA PERON

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