Tucanos e petistas agora travam 'guerra ética' por vaga no 2º turno em São Paulo

Em evento com o candidato Serra, Fernando Henrique 'conclama' intelectuais a se engajarem numa luta pela 'recuperação moral' do País; fustigada pelas condenações do mensalão, campanha de Haddad já prepara contra-ataque com escândalos que envolvem PSDB

O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h04

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conclamou ontem intelectuais simpáticos ao PSDB a se engajar numa luta pela "recuperação moral" da política, com o apoio à candidatura de José Serra (PSDB). Para fazer frente ao novo ataque no campo da ética, a coordenação da campanha de Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de São Paulo bateu o martelo sobre a exploração, no programa eleitoral de TV, de escândalos envolvendo os tucanos e seus aliados.

Ao participar de ato promovido por Serra no cinema Reserva Cultural, na Avenida Paulista, FHC citou de forma indireta o julgamento do mensalão, no Supremo Tribunal Federal. Disse que a democracia brasileira "começa a ser minada por dentro" e fez um "chamamento" a favor do PSDB na disputa. "Serra é o candidato que representa um reencontro do Brasil com a sua história de luta pela democracia. É o candidato da gente de bem e decente. É capaz pela preparação e pelo estudo, não pela esperteza e pela malandragem", afirmou FHC.

Serra e Haddad estão tecnicamente empatados em segundo lugar nas pesquisas e lutam por uma vaga no 2.º turno contra Celso Russomanno (PRB), líder das sondagens de intenção de voto.

A campanha de Haddad pretende explorar o escândalo da aprovação de empreendimentos imobiliários da gestão Gilberto Kassab (PSD). A crise foi exposta pela evolução patrimonial de Hussain Aref Saab, ex-diretor do setor de aprovação de prédios da Prefeitura (Aprov), que adquiriu 106 imóveis. Aref foi nomeado para o cargo por Serra, quando o tucano ainda era prefeito.

Os petistas também planejam ligar o engenheiro Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, ao candidato do PSDB. Ex-diretor da Dersa, ele foi apontado pela Polícia Federal como responsável por contatos entre a estatal paulista e a empresa Delta Construções e chegou a depor na CPI do Cachoeira, onde negou ter feito caixa 2 para campanhas de Serra.

O embate ético ganha peso 24 horas depois de a Executiva Nacional do PT ter convocado militantes para uma "batalha do tamanho do Brasil", com o objetivo de defender o governo Luiz Inácio Lula da Silva em meio ao julgamento do mensalão.

A equipe de Serra calibrou o discurso contra os petistas, levando para a propaganda de TV peças que ligam Haddad ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e ao ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, réus do mensalão. Na resposta, a campanha de Haddad vai mostrar que votar em Serra é aprovar a volta de Kassab, prefeito com 44% de rejeição.

'Recorrência'. No ato de ontem, do qual participaram o reitor da USP, João Grandino Rodas, a atriz Beatriz Segall e o maestro Júlio Medaglia, FHC foi taxativo: "Depois de vários anos em que o Brasil ganhou democracia, conseguiu avanços econômicos e avanços sociais, esta mesma democracia começa a ser minada por dentro pela falta de crença que advém da percepção que existe no País por práticas correntes e recorrentes".

Em um vídeo divulgado mais tarde pelo grupo de artistas e intelectuais, o ex-presidente citou o julgamento do mensalão no STF e afirmou que "ninguém tem o direito de calar" o debate sobre o escândalo.

"Estamos assistindo no Brasil a um julgamento importante sobre um fato gravíssimo, cujas consequências sabe Deus quais serão", disse o tucano.

Ao dividir o microfone com FHC, Serra manteve o foco sobre o mensalão. "Essa questão que está no Supremo Tribunal Federal, esse julgamento, é o começo do fim da impunidade no Brasil. Temos que voltar a valorizar a ética e a moral", afirmou. "Agora, precisamos traduzir isso também em resultados eleitorais."

O candidato do PSDB também criticou o "fisiologismo" e o "aparelhamento" do governo federal pelo PT, insinuando que a vitória de Haddad ou Russomanno representaria um risco.

Para o presidente do PT, deputado Rui Falcão, Serra e Fernando Henrique deviam olhar para o próprio PSDB. "Qualquer movimento de recuperação moral deve começar por passar a limpo a privataria do governo tucano e os esclarecimentos sobre a compra de votos para aprovar a reeleição, em 1997", reagiu.

As campanhas de Haddad e Serra enfrentam agora o dilema de como atacar a candidatura de Russomanno sem provocar os eleitores dele. O PT pretende mostrar o candidato do PRB como um empresário rico, embora ele se apresente como "um homem simples e do povo". Os tucanos, por sua vez, distribuirão folhetos nas ruas com reportagens que levantam suspeitas sobre a vida política de Russomanno. / BRUNO BOGHOSSIAN e VERA ROSA

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