Troca de fotos fazia parte da cooperação entre os regimes

Fotografias de passaportes retidas pelo Brasil apareceriam em sessões de tortura na Argentina, segundo constatou a ONU

GENEBRA, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2012 | 03h03

A cooperação entre os serviços de inteligência do Cone Sul é amplamente comentada nos documentos internos da ONU. Entre as ações conjuntas que mais chamaram a atenção da entidade está o sistema de envio de fotos de suspeitos entre o regime brasileiro e os militares da repressão argentina.

O Brasil exigia que estrangeiros, mesmo aqueles protegidos pela ONU, renovassem seus vistos temporários a cada três meses. Em troca do novo documento, ficavam com as fotos 5x7 dos passaportes vencidos.

Para surpresa dos funcionários da ONU, essas fotos apareceriam depois em sessões de tortura na Argentina. Militantes que eram devolvidos pelo Brasil para as forças argentinas eram obrigados a reconhecer seus companheiros, por meio de fotos 5x7 de que os militares vizinhos misteriosamente dispunham.

A constatação da existência do sistema foi primeiro informada à ONU por dois argentinos que buscavam ajuda para serem retirados do Brasil e enviados para a Europa. Pelo relato, ambos haviam sido torturados na Argentina e se depararam com as fotos fornecidas pelas forças brasileiras ao regime argentino.

Em junho de 1979, um telegrama escrito pelo escritório da ONU no Rio de Janeiro relata como prisioneiros na Argentina foram "confrontados com fotos tiradas de refugiados protegidos pela ONU nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro".

"Eles também foram confrontados com fotos para passaportes brasileiros desses mesmos refugiados", indicou. "Nossos refugiados devolvem fotos para a polícia brasileira quando renovam seus vistos temporários", explicaria a ONU, indicando a fonte da coleta de fotos. / J.C.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.