TRIPOLI E ANÍBAL NA TRINCHEIRA PELA PRÉVIA

Pré-candidatos tucanos resistem ao favoritismo de Serra e não abrem mão da consulta interna

O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h04

Quinta-feira, dia 1.º de março, o deputado Ricardo Tripoli (PSDB-SP) se reúne com lideranças comunitárias no Sindicato dos Químicos, no centro da capital paulista. Para uma plateia de cerca de 50 pessoas, diz: "(O ex-governador José) Serra vai ter que se explicar. Tudo o que vão falar para cima dele é se vai sair ou não (da Prefeitura para disputar a Presidência)".

No dia seguinte, em outro ponto da região central, o secretário estadual José Aníbal (Energia) se encontra com militantes e presidentes de diretórios zonais do PSDB tucanos para um almoço. Circula entre as mesas, com as mangas da camisa arregaçadas, e questiona: "Por que adiar?". É uma crítica à postergação da prévia em três semanas em razão da entrada de Serra na disputa. Marcada para hoje, será agora dia 25.

"Tem uma foto dele no tablet. Todo mundo o conhece", completou Aníbal, citando o sistema de votação do PSDB em que o militante escolherá seu candidato por meio de tablets espalhados em 58 locais da cidade.

Tripoli e Aníbal, que arrancavam palmas de suas plateias, são agora os desafiantes de José Serra. Na semana passada, os outros pré-candidatos, os secretários estaduais Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente), desistiram da prévia em nome de Serra. O fantasma da candidatura do ex-governador rondou os sete meses de campanha interna no PSDB. Até que, finalmente, no último domingo, se colocou como fato.

O governador Geraldo Alckmin chamou Tripoli e Aníbal para um cafezinho no Palácio dos Bandeirantes e, após uma conversa branda sobre a moto da marca Leonette que tinha nos anos de juventude em Pinda, anunciou a candidatura Serra. E, apesar das juras de que a prévia seria mantida, deu indícios de que a máquina governamental já pendia para um lado.

Tripoli e Aníbal chegaram à reunião em carros diferentes, mas saíram do Palácio dos Bandeirantes juntos. Deram início à ação conjunta para resistir à pressão das lideranças do PSDB pró-Serra. Ação se materializou em telefonemas diários e numa nota pública pedindo a Serra que participe de debates.

Até a semana passada, o ex-governador, que não é politicamente próximo de nenhum dos dois, não os havia procurado. Por ironia, tanto Tripoli quanto Aníbal se dizem seguidores políticos do governador Mario Covas (1930-2001), que era de grupo distinto do de Serra no PSDB.

Em campo. Os prognósticos no PSDB apontam para Serra vencedor, e os tucanos descartam uma "zebra" no dia da prévia. Mas Tripoli e Aníbal rechaçam as previsões, que dizem ser contaminadas pela visão pró-Serra de lideranças do partido. Com mais ou menos entusiasmo, foram à caça dos votos de Matarazzo e Bruno.

Aníbal tomou café da manhã na semana passada com líderes comunitários da Zona Sul. Na matemática eleitoral, diz: "São, pelo menos, 80 votos". Tripoli, com o celular, comemora mais uma adesão de um puxador de votos tucanos. Aliás, num partido em que as decisões são tradicionalmente tomadas pela cúpula, os militantes da ponta - aqueles que filiaram vizinhos e familiares e mantêm ascendência sobre os seus votos - passaram a ser os homens mais prestigiados do PSDB nos últimos dias.

Dono de um discurso mais conciliador, Tripoli, advogado de formação, brinca que, aos 59 anos, é agora o "candidato mais jovem da prévia". Coloca-se no debate com uma espécie de discurso "alternativo", em que mescla questões de meio ambiente e de qualidade de vida. Político, não bate na gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), cujo flerte eleitoral com o PT foi decisivo para Serra se candidatar. "Não é uma gestão ruim. Há coisas boas que podemos aproveitar." Que coisas boas? "O Cidade Limpa", disse sobre o projeto de restrição da publicidade pela cidade.

Foi o único dos pré-candidatos que colheu as 220 assinaturas necessárias para se inscrever na prévia - os outros tiveram as pré-candidaturas chanceladas pela direção municipal do PSDB.

Lembra que procurou Serra em seu escritório em 2011 para informar que se inscreveria na prévia. Na conversa, o ex-governador usou o discurso que entoou até janeiro: disse que não seria candidato, e que Tripoli deveria seguir em frente com a prévia, que faria bem ao partido.

Aníbal, de 64 anos, conhecido no PSDB pela verve mais enfática, é economista. Atuou no movimento estudantil com a presidente Dilma Rousseff, com que mantém amizade até hoje. Nos discursos, destaca a carreira política e a experiência na vida pública. Propõe a criação das chamadas "prefeituras distritais" para descentralizar a administração. "São Paulo está mal governada. Faltam R$ 300 mil para fazer uma calçada no Grajaú", declara, sem pisar em ovos.

Conta que na disputa de 2004 desistiu da prévia e abriu mão para Serra. "Naquele momento, achava que ele tinha preferência. Hoje, não."

Procede a tese de que os dois podem se unir numa chapa única? "Não", dizem. E logo desconversam. / J.D.

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