Tremor na base

Sentindo que Lula poderá não voltar a se candidatar - mesmo se a saúde permitir, por razões políticas - e querendo assegurar o papel de protagonista no projeto de continuidade no poder, o PT estaria fomentando atritos entre os outros dois principais partidos de sustentação ao governo para, assim, enfraquecê-los junto à presidente Dilma Rousseff.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h04

Pode ser fato ou só impressão, mas é essa a versão preponderante nas conversas entre lideranças do PSB e do PMDB a respeito do que entendem como um plano para criar um cenário de dificuldades a fim de "vender" - é o termo utilizado - proteção à presidente, apresentando-se a ela como fiel esteio a fim de assumir o papel de maior destaque que os petistas esperavam ter no governo sem Lula à frente da Presidência.

Apontam como o arquiteto da obra o deputado cassado e réu do mensalão José Dirceu, lembrando o discurso dele em reunião de sindicalistas no ano passado dizendo que no governo Dilma o PT teria espaço para fazer e acontecer, o que por enquanto não se confirmou.

Ao contrário: os petistas se sentem alijados e desconfortáveis com a maneira mais cerimoniosa da presidente de tratar dos interesses do partido, enquanto a veem mais próxima de valores que vinham sendo reclamados pela sociedade e deixados de lado pelo partido durante a gestão Lula, conduta que lhe confere uma autonomia além do esperado no programa original.

Nesse quadro, a possível volta do ex-presidente era um trunfo e, quando essa hipótese se distancia, o PT começa a se inquietar com o futuro e a trabalhar para se fortalecer.

Como faz isso, na visão dos aliados? Enfraquecendo as outras correntes de sustentação ao governo a fim de tornar a presidente cada vez mais caudatária do PT. A meta seria afastar esses partidos da convivência presidencial e dos ministérios para ceder maior espaço ao partido à medida que se aproximar a campanha presidencial de 2014.

Com essa análise na cabeça, PSB e PMDB decidiram que o melhor a fazer é não cair na armadilha, não brigarem entre si, não disputarem quem é o mais próximo da presidente, mantendo sempre ativa uma linha direta de diálogo com Dilma e reafirmando apoio à reeleição dela.

Em suma e com outros detalhes sobre o risco de as artimanhas do PT acabarem levando os aliados a procurar outros caminhos, foi o que disse a Dilma o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, no jantar que teve com ela há uma semana.

Risca de giz. O senador Aécio Neves vetou a coligação na chapa de vereadores em Belo Horizonte sabendo que os petistas não aceitariam, para forçar a ruptura da aliança e assim demarcar terreno como pré-candidato de oposição à Presidência.

No momento em que o PSDB dá duro para combater o PT em diversas praças, principalmente em São Paulo com José Serra à frente, Aécio precisava dar uma demonstração ao partido de que sabe falar grosso com o adversário.

Ainda que entenda as razões, Dilma Rousseff está contrariada com o prefeito de BH, Marcio Lacerda, que 15 dias antes da ruptura havia lhe garantido a continuidade da aliança.

Trem fantasma. Demóstenes Torres não poderia ter substituto mais "representativo" que Wilder Morais. Biônico como todo suplente de senador, indicado para a chapa por Carlos Cachoeira, acusado de omitir patrimônio da Justiça Eleitoral, tomou posse na calada de uma manhã de sexta-feira.

De surpresa, rapidamente para não dar tempo a questionamentos e, fazendo jus ao pequeno, mas já notório histórico, sem dar explicação alguma sobre as suspeitas que o cercam prestou juramento da tribuna do Senado prometendo honrar o mandato "que o povo de Goiás" lhe conferiu.

Parece brincadeira, seria bom que fosse, mas lamentavelmente não é.

Cabe a suas excelências, se autoridade moral lhes restar, decidir se deixam por isso mesmo.

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