Tradição dos Fulni-Ô resiste nas escolas

Índios pernambucanos preservam a língua com aulas para as crianças e novo livro didático

ANGELA LACERDA / RECIFE, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2012 | 03h07

Sotxa kaka. É assim, com um "boa tarde" em Yaathe, a língua dos índios Fulni-Ô, que o professor Cícero de Brito, 36 anos, recebe seus alunos na Escola Estadual Marechal Rondon, no município de Águas Belas, a 275 quilômetros do Recife, no semiárido pernambucano. A língua materna da tribo passou a fazer parte, em 2010, do currículo oficial das duas escolas de ensino regular da aldeia - que oferecem do maternal ao médio. Há também, desde 1987, uma escola exclusiva do ensino do Yaathe.

Os cerca de 6 mil Fulni-Ô que vivem na região lutam contra a corrente. Segundo o Censo do IBGE, em todo o País, somente 37,4% dos índios com cinco anos ou mais de idade falam alguma língua indígena. São 294 mil pessoas que falam 274 línguas diferentes. Entre os que vivem dentro das terras indígenas, 57,3% falam línguas nativas e, fora dos territórios, são apenas 12,7%.

Para manter a língua Yaathe viva, as três escolas em Águas Belas têm 2.384 alunos matriculados e adotam um calendário diferente, adequado à tradição religiosa indígena, que durante os meses de setembro a novembro se retiram para o Ouricuri - ritual sagrado realizado em uma área afastada, sem energia elétrica e sem acesso a quem não for Fulni-Ô. "Nossa língua é a nossa arma, nossa força e nossa identidade", afirma a coordenadora das escolas, Maristela de Albuquerque Santos, filha do cacique João Francisco dos Santos Filho, ao afirmar orgulhosa que o Yaathe é a única língua indígena institucionalizada no Brasil.

Ela comemora a conquista da inclusão da língua nas escolas indígenas como a melhor forma de manter viva a tradição dos Fulni-Ô. Fruto de muita luta, a conquista tem gosto especial porque a cidade de Águas Belas, de população majoritariamente não-indígena, está fincada no centro da reserva dos Fulni-Ô. O contato de índios e não índios é muito próximo, quase misturado, o que torna a cultura tradicional ainda mais vulnerável. "A tendência de absorver a cultura dos outros é maior se não tivermos segurança da nossa", observa Maristela.

Um padrão de escrita e do ensino da língua - ainda inexistente - está sendo buscado pelos envolvidos e ganhou semana passada uma referência: o livro "Descrição da Língua Indígena Brasileira Yaathe - um ponto de partida para os professores de Águas Belas", escrito e bancado pelas suas autoras Januacele da Costa e Fábia Pereira da Silva, esta Fulni-Ô doutoranda em Linguística.

O lançamento, exclusivo na aldeia, gerou muitas exclamações de "Ya am" (pelas mulheres) e "A-ey" (pelos homens), expressões em Yaathe usadas diante de algo que os encanta ou impressiona. / COLABOROU LUCIANA NUNES LEAL

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