Tortura de Dilma em MG mobiliza comissão

Colegiado que apura crimes contra os direitos humanos vai analisar relato da presidente

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2012 | 03h06

A divulgação, no domingo, de um relato de torturas sofridas pela presidente Dilma Rousseff chamou a atenção da Comissão Nacional da Verdade para o arquivo do Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais. Reunidos ontem pela manhã, em São Paulo, os integrantes da comissão decidiram que vão analisar e, se necessário, requisitar o material.

O depoimento, no qual a presidente da República relata ter passado por sessões no pau de arara, além de choques e outras agressões, enquanto esteve presa em Juiz de Fora, foi divulgado pelos jornais O Estado de Minas e Correio Braziliense. Dilma havia feito o relato perante a Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura do Estado de Minas Gerais em 2001. O material foi mais tarde enviado ao Conselho dos Direitos Humanos e permaneceu inédito até agora.

Chamou a atenção da Comissão Nacional da Verdade, segundo um de seus integrantes, José Carlos Dias, advogado e ex-ministro da Justiça, a informação de que o mesmo arquivo contém centenas de outros relatos e documentos oficiais. "Vamos pedir o acesso a esses papéis", afirmou o ex-ministro.

A reunião em São Paulo estava programada originalmente apenas para tratar do planejamento burocrático, o cronograma de trabalho da comissão. A divulgação do relato de Dilma acabou alterando a agenda.

Pesquisadores. Na mesma reunião de ontem, a historiadora Heloísa Starling, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e assessora da comissão, foi designada para coordenar a análise dos documentos. Nos próximos dias, dois pesquisadores indicados por ela farão uma visita ao arquivo em Belo Horizonte.

"Eles vão se inteirar sobre os documentos que estão sob a guarda do conselho", explicou a historiadora. "Precisamos verificar o conteúdo dos documentos para decidir o que fazer."

De acordo com o professor Robson Savio Reis Souza, que dirigiu a Comissão de Indenização entre os anos 2000 e 2004, a maior parte do material arquivado é inédita. Em conversa por telefone com o Estado, ele contou que a expectativa da comissão, instalada quando Itamar Franco governava o Estado, era localizar cerca de 200 pessoas vítimas de tortura, "mas acabamos recebendo quase 800 pedidos", revelou o professor.

Anônimos. O que mais surpreendeu os integrantes da comissão, segundo Souza, foi o fato de a maior parte dos requerimentos partir de pessoas que não faziam parte de sindicatos e partidos políticos, nem figuravam nas listas de vítimas mais conhecidas. "Eram anônimos, que, embora perseguidos, não haviam tido ainda oportunidade de serem ouvidos."

Souza contou que as pessoas não eram obrigadas a relatar as torturas. "Pedíamos relatos pessoais, com o intuito de dar voz às pessoas, não para colocá-las mais uma vez na situação de vítimas", afirmou. "Dilma aceitou o convite e nós fomos até Porto Alegre para ouvi-la."

Os textos com o relato da presidente e de outras centenas de pessoas estão esquecidos numa sala utilizada pelo conselho, do Edifício Maletta, na Rua Bahia, no centro de Belo Horizonte. "É um local tradicional da cidade, um antigo ponto de encontro de intelectuais e de militantes de esquerda", diz Souza.

O depoimento de Dilma ocorreu quando era secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Ela relatou agressões sofridas em Minas, após ter sido presa por sua militância no Comando de Libertação Nacional (Colina) e na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organizações que defendiam a queda do regime militar pela via armada. / COLABOROU MARCELO PORTELA

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