Torpedo pode ampliar CPI

O torpedo do deputado Candido Vaccarezza ao governador Sérgio Cabral compromete a estratégia do PT de limitar as investigações da empresa Delta ao Centro-Oeste e escancara o propósito do partido de transformar a CPI num tribunal exclusivo para réus adversários. O que já estava difícil parece agora improvável e reforça em setores do partido a sensação de que a criação da comissão pode ter sido uma iniciativa politicamente equivocada.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2012 | 03h02

A mensagem do deputado não é o único fator a conspirar contra o limite por ora imposto pelo PT. Na avaliação de parlamentares com ampla experiência em CPIs passadas, a investigação da Delta no Centro-Oeste produzirá informações sobre a movimentação financeira entre a matriz da empresa e suas filiais, tornando inevitável a extensão do processo a outros Estados, onde estarão também as digitais do contraventor Carlos Cachoeira.

O torpedo que virou sensação não fragiliza apenas seu autor, mas todo o partido, por sintetizar o comportamento do PT na CPI, de blindar aliados e eliminar adversários. O episódio abre espaço para a pressão da sociedade em favor da ampliação das investigações, o que deverá ser estimulado pela oposição.

O PT agora joga com o tempo para reduzir os danos colaterais de uma CPI que pretendeu controlar. A quebra de sigilo de dezenas de personagens secundários no esquema de corrupção de Carlos Cachoeira, depoimentos que pouco acrescentam ao que já se sabe, o questionamento permanente do procurador-geral, Roberto Gurgel, e a insistência em criminalizar a mídia funcionam como elementos diversionistas, mantendo a CPI em banho-maria.

Arapongagem

no governo do DF

Blindado, por ora, na CPI do Cachoeira, o governador Agnelo Queiroz (PT) tornou-se alvo da Comissão de Segurança Pública da Câmara, que aprovou a realização de audiência pública para analisar as denúncias de arapongagem no governo do Distrito Federal, a partir de uma central de grampos instalada na Casa Militar. A pedido do deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), serão ouvidos o chefe da Casa Militar, coronel Rogério Leão, tenentes coronéis da PM-DF e os jornalistas Edson Sombra e Mino Pedrosa. A audiência está programada para junho.

Plenos poderes

O presidente da CPI do Cachoeira, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), e o relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), vêm sendo criticados pela concentração de poderes e controle excessivo. Após um mês de funcionamento da comissão, ainda não indicaram os vice-presidentes e sub-relatores. Segundo colegas, para não dividir o poder e os holofotes nem com aliados nem com a oposição.

Efeito Delta

Investigado pelo Ministério Público por causa da compra da Delta Construções, o Grupo J&F Participações, que controla o frigorífico JBS, terá de dar explicações no Senado sobre outra operação - o monopólio na comercialização da carne. Senadores dizem que a concentração do setor leva à manipulação do preço da arroba e ao fechamento de pequenos frigoríficos. O debate na CAE e na Comissão de Agricultura está previsto para junho, com a participação do BNDES, acionista do JBS, e do Cade.

Mais um

Aliados de Michel Temer já articulam sua recondução para novo mandato de presidente nacional do PMDB na eleição programada para março de 2013. Temer vem sendo reeleito sucessivamente, desde 2001. Em 2008, enfrentou Nelson Jobim, que na última quinta-feira acusou o partido de "se curvar" diante do PT.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.