TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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‘Toda esquerda foi vitimada pelo antipetismo’, diz presidente do PSOL

Dirigente diz que PSOL não é ‘extremista’ e terá papel decisivo em 2022; sigla tem candidatos no 2º turno em duas capitais

Entrevista com

Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOLDirigente diz que PSOL não é ‘extremista’ e terá papel decisivo

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 05h00

Presidente nacional do PSOL, o historiador gaúcho Juliano Medeiros, de 37 anos, afirmou que a aparição do partido no segundo turno de duas capitais faz a legenda se credenciar a influenciar na disputa presidencial de 2022, como oposição ao presidente Jair Bolsonaro. Em São Paulo, o candidato Guilherme Boulos apareceu com 35% das intenções de voto na pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo mais recente, atrás de Bruno Covas (PSDB), com 47%. Em Belém, Edmilson Rodrigues aparece com 45%, ante 43% de Delegado Eguchi (Patriota).

Em entrevista ao Estadão, Medeiros disse que os partidos de esquerda no Brasil passam por um momento de transformação e de reequilíbrio de forças e que todos os políticos desse campo são atingidos pelo antipetismo. Segundo ele, o PSOL se beneficiou da chegada de novos atores, como Boulos e ativistas de causas identitárias, como o combate à homofobia e ao racismo. Na avaliação do dirigente, isso aproxima a legenda de um novo ciclo da esquerda mundial, conectada a movimentos como o Podemos, da Espanha, e a Frente Ampla, do Chile.

Sobre a pecha de ser “radical”, Medeiros afirmou que o partido quer “ressignificar” a expressão, fazendo questão de se distanciar dos extremistas.

Qual o balanço do primeiro turno das eleições municipais?

Primeiro, o grande derrotado é o Jair Bolsonaro. A imensa maioria dos candidatos apoiados por ele teve péssima votação. Segundo, há um relativo enfraquecimento da polarização de 2018 e uma nova polarização toma lugar, não tanto entre personagens e partidos, mas entre projetos. De um lado, forte intervenção do Estado, recuperação da capacidade de investimento, financiamento adequado de políticas públicas. De outro, ajuste fiscal, privatizações.

E em relação à esquerda? 

Ficou evidente que a teoria do demônio de duas cabeças, de um lado o bolsonarismo e, de outro, a esquerda caiu por terra. O PSOL foi o partido que mais cresceu no Brasil, embora em números absolutos não seja comparável com os antigos partidos. E o restante da esquerda não foi mal. 

Qual o impacto do resultado desta eleição numa recomposição da esquerda no Brasil?

Acho que isso já está acontecendo. Há uma saudável e positiva disputa de projetos na esquerda que não tem impedido a unidade na oposição ao Bolsonaro, mas é expressa em formas diferentes de interpretar a sociedade brasileira. O PSOL representa a agenda da nova esquerda que tem suas representações na Europa e na América Latina. O PT vem de uma tradição mais longeva, um partido socialista moderado. E tem um bloco de forças reivindicando a posição de um bloco social-democrata no Brasil, o PDT, o PSB, a Rede, o PV. A gente ouve falar de lideranças que não estão confortáveis em seus partidos e alimentariam a expectativa de uma nova legenda, mas não vejo espaço para isso.

O que tem provocado essa transformação do PSOL?

O PSOL acabou sendo escolhido por uma série de ativistas de uma nova geração. Este projeto de repaginação do PSOL se dá com a entrada do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), de uma série de movimentos sociais, lideranças dos movimentos negro, feminista, LGBT e alguns deslocamentos pontuais.

Você considera o PSOL uma opção de projeto nacional viável? 

Está se tornando. Nós ainda não temos nenhum governo de Estado e esperamos agora governar as primeiras grandes capitais. Com isso, o PSOL se torna uma opção de poder real e um ator decisivo para 2022.

O Podemos, da Espanha, é uma inspiração? 

Sim. O PSOL faz parte de um ciclo de partidos que criticam os limites da social-democracia e da simples administração do capitalismo. O Podemos, o Bloco de Esquerda em Portugal, a Frente Ampla no Chile e, mais lá atrás, o Syriza na Grécia eram partidos que surgiram em um contexto de crise da democracia representativa se postulando como uma esquerda vinculada às lutas sociais. Então, deste ponto de vista o PSOL guarda semelhanças e tem boas relações com estes partidos. Mas o PSOL, por nascer de uma dissidência do PT, também traz consigo marcas dessa experiência. São lideranças que neste novo contexto histórico adicionam às lutas pelo trabalho, por democracia, toda uma agenda que estava presente, mas de forma secundária na esquerda do século 20. A gente quer ser uma esquerda socialista e libertária, mas conectada com as lutas do século 21. 

As denúncias de corrupção contra o PT acabam resvalando no restante da esquerda? 

Toda a esquerda foi vitimada pelo antipetismo que se construiu a partir da Operação Lava Jato e das denúncias de corrupção. Demonstrar que a associação automática entre esquerda e corrupção e ineficiência administrativa não tem fundamento é dever de todos nós. Isso se faz com boas administrações, com o exemplo, muito mais do que com palavras. 

Radicalismo é uma palavra que já está sendo explorada pelo prefeito Bruno Covas contra Boulos em São Paulo. A primeira leva de fundadores do PSOL era chamada de “radicais do PT”. O PSOL é hoje menos radical do que era quatro anos atrás? 

Não. Estamos inclusive, com a ajuda do Bruno Covas, ressignificando o conceito de radicalidade. A nossa radicalidade tem a ver com a nossa indignação com a injustiça, nosso compromisso com os pobres, nosso empenho em fazer do Brasil um lugar justo. Não somos extremistas e rechaçamos o extremismo. Mas, na defesa de quem mais precisa, somos defensores de uma radicalidade positiva.

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