'Tive a infelicidade de ser filmado', diz prefeito de Palmas

Flagrado em vídeo oferecendo favores a Cachoeira, Raul Filho diz à CPI que seus sigilos fiscal, bancário e telefônico estão à disposição

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2012 | 03h06

Abandonado pelo PT, que estuda expulsá-lo do partido, e massacrado pela oposição, o prefeito de Palmas, Raul Filho, não conseguiu convencer ontem os integrantes da CPI do Cachoeira que não recebeu doações do contraventor Carlos Cachoeira para suas campanhas.

Em quatro horas de depoimento, Raul Filho pôs seus sigilos bancário, fiscal e telefônico à disposição da CPI, afirmou que estava sendo usado como "boi expiatório" e lamentou ter tido a "infelicidade de ser filmado" em negociação com Cachoeira, em 2004, antes de ser eleito pela primeira vez prefeito de Palmas.

"Eu tive a infelicidade de ser filmado", lastimou Raul Filho, que chegou à CPI de mãos dadas com a mulher e deputada estadual Solange Duailibe (PT). "Não há nada que vincule o esquema de Cachoeira com a Prefeitura de Palmas", disse. "O Cachoeira nunca fez doação para a minha campanha, conforme comprova a minha prestação de contas. Nenhuma empresa do Cachoeira venceu qualquer licitação durante o meu governo", repetiu o prefeito.

Dizendo ter sido apresentado ocasionalmente a Cachoeira em 1994, em Goiânia, Raul Filho afirmou que só voltou a se encontrar com o contraventor em 2004, por ocasião de sua campanha à Prefeitura de Palmas. Foi esse segundo encontro, em Anápolis, que o então candidato foi filmado em negociação com Cachoeira. À CPI, Raul Filho afirmou não lembrar como Cachoeira lhe foi apresentado: se apenas como empresário ou se alguém o informou também que ele era bicheiro.

Contradições. Para o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), o depoimento do prefeito teve contradições, que obrigam ao aprofundamento e à continuidade das investigações. "O que é mais revelador é o modus operandi da organização criminosa, que segue um padrão de comportamento em que se financia a campanha eleitoral em troca de benefícios contratuais", disse o relator. Com exceção de Cunha, nenhum deputado do PT fez perguntas ao prefeito.

O vice-presidente da CPI, deputado Paulo Teixeira (PT-SP), foi outro que não ficou satisfeito com o depoimento do prefeito. "Ele é do nosso partido. Ele teria de convencer a todos. Como ouvinte, ele não me convenceu."

O vídeo em poder da CPI e apreendido na casa de Adriano Aprígio, ex-cunhado de Cachoeira, mostra Raul Filho pleiteando doação de recursos para sua campanha em troca de facilidades na administração de Palmas, caso fosse eleito.

No depoimento, Raul Filho tentou desvincular de Cachoeira os contratos firmados com a Delta para a coleta de lixo em Palmas. Segundo o prefeito, os seis contratos firmados com a Delta para coleta de lixo em Palmas, nos últimos sete anos, chegaram a R$ 71 milhões. A suspeita é que a entrada da Delta em serviços prestados à Prefeitura de Palmas seja a contrapartida de recursos doados por Cachoeira para a campanha de Raul Filho.

À CPI, o prefeito confirmou que seu cunhado Pedro Duailibe recebeu R$ 120 mil de uma empresa, depositados numa conta em nome de uma assessora de sua mulher. Ele também admitiu que sua cunhada Kênia era a responsável pela área de licitação da prefeitura quando a Delta conquistou os contratos de coleta de lixo da cidade.

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