Teoria da gangorra

Boa parte das análises sobre o aumento da avaliação positiva da presidente da República na última pesquisa do Ibope (77% contra 72% na anterior) atribui o fato ao recente confronto entre a maneira de Dilma tratar seus aliados no Congresso e a forma como eles gostariam de ser tratados.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2012 | 03h02

Na mesma pesquisa, porém, apenas 4% dos consultados disseram ter tomado conhecimento das escaramuças. Ora, se tão ínfima parcela prestou atenção à chamada "crise com a base aliada", pela lógica não se poderia dar tanto peso ao contraponto entre Executivo e Legislativo no cálculo da apreciação popular à presidente.

O mais provável é que não haja uma ligação tão direta assim entre uma coisa e outra, bem como os índices relacionados à pessoa da presidente não refletem a alta desaprovação (60% em média) ao modo de o governo lidar com a saúde, educação, segurança pública e cobrança de impostos.

Existe a insatisfação pontual que, no entanto, não prejudica a sensação de satisfação geral.

Muito embora o governo considere que o resultado da pesquisa esteja ligado à percepção de atuação ética rigorosa e por isso se sinta injustiçado quando se apontam equívocos no modo de Dilma se relacionar com o Congresso.

Os políticos, por sua vez, dizem que se sentem "usados" por ela para construir boa imagem junto ao público. De onde se conclui que concordam com a tese de que a presidente "cresce" na proporção direta ao "decréscimo" da confiança no Parlamento.

É uma visão parcial da cena, cuja consequência pode levar ambas as partes a conclusões deformadas sobre seus respectivos erros e acertos.

O governo a não arrumar o que precisa ser arrumado, fazendo da dinâmica do conflito permanente um modo de vida, e o Congresso a se encolher ainda mais na ilusão de que estará vacinado contra a indiferença indignada que lhe dedica a população caso se submeta aos ditames da popularidade.

O raciocínio, guardadas as circunstâncias diferentes, vale para os partidos aliados e vale também para a oposição.

Pela interpretação de que existe uma gangorra hipotética em que o Executivo vai ao alto porque o Legislativo vai abaixo, Dilma poderia dar um descanso à marca de espetacular administradora - um tanto desgastada pela realidade dos atrasos e fracassos na execução de obra e projetos - para surfar na onda da santa guerreira no combate à corrupção.

Uma miragem dos dois lados. O profundo poço em que se enfurnam os políticos vem sendo cavado há tempos e guarda muito mais relação com suas próprias fragilidades do que com a cenografia presidencial.

Dele só têm chance de sair com alteração profunda de procedimentos, começando por ter agenda própria referida no interesse público. Difícil? Pois é, mas não há outro modo de conquistar respeito.

Já o governo não tem condições de se escorar apenas na bandeira do rigor ético por dois motivos. Um deles a própria pesquisa do Ibope aponta: muito pouca gente anda dando valor a esses valores.

O outro diz respeito à realidade que emergirá quando, e se, muito mais gente começar a prestar atenção no assunto: a presidente Dilma mudou em relação à forma de seu antecessor, mas no conteúdo manteve tudo em seus devidos lugares errados.

De camarote. Em 2010 a candidata Dilma Rousseff mal participou da própria campanha. Nela, o papel principal coube ao então presidente Luiz Inácio da Silva.

Não será, portanto, das campanhas municipais que a presidente Dilma participará diretamente.

Por falta de vocação para líder de torcida, por carência de disposição de perder tempo em confrontações com a Justiça Eleitoral e porque as alianças partidárias serão tão heterodoxas que, ao frequentar um palanque para agradar a determinado aliado, Dilma corre o risco de desagradar a vários outros.

Note-se, porém, que a equidistância dirá respeito à figura da presidente, mas não necessariamente à estrutura de governo.

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