'Tenho curso de filés e risotos', conta chef de cozinha

A organização não governamental (ONG) beneficiada com um contrato de R$ 869.900 contratou um chefe de cozinha e blogueiro de culinária, proprietário da empresa Rover Consultoria, para preparar um diagnóstico sobre aquicultura nos 11 municípios da região das Águas Emendadas, no cerrado brasiliense.

BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2012 | 03h08

O valor do contrato: R$ 75.900. Em entrevista ao Estado, o dono da Rover, Gabriel Rogério, falou que não trabalhava com peixes. "Tenho agora um curso de filés, de risotos e de molhos. Faço cursos fechados, geralmente a partir de uma demanda." O blogueiro de gastronomia também não lembrava de nenhum trabalho feito para o Ministério da Pesca. "Nunca fiz nada para o ministério. Nunca nem adicionei nada nas minhas receitas." Segundo Rogério, o contrato social da Rover foi alterado para focar na parte de cozinha.

"A Rover era uma empresa de consultoria empresarial, que atuava na parte de digitalização e de processamento de documentos. Mas só prestou dois ou três serviços", disse o blogueiro.

Questionado sobre a relação com a ONG Pró-Natureza e Beatriz Borges, ele se lembrou de um trabalho. "Ah. Deve envolver esse serviço da Pesca. Não estou lembrando. Tem muito tempo. Já estou deixando de trabalhar com isso. Tem que falar com ela (Beatriz) mesmo."

Minutos depois, Beatriz Borges entrou em contato com o Estado e afirmou que o contrato com a Rover foi feito depois de Rogério mostrar um portfólio na área de geoprocessamento de dados. "Não é só porque ele tem um blog de cozinha que não pode prestar esse serviço. Não o conhecia, mas uma pessoa aqui sabia do trabalho dele e a Rover foi habilitada. Muito simples, como dois mais dois são quatro."

Funcionária pública por 26 anos, Beatriz, além de trabalhar na ONG, é presidente da Associação Brasiliense de Turismo Receptivo (Abare). "Não preciso de dinheiro. Tive sorte e tenho três ex-maridos ricos. O projeto é para ajudar as famílias."

Sobre os atrasos, ela responde: "Tivemos percalços no caminho, principalmente a seleção das famílias. Fizemos mais de 45 visitas aos municípios. Infelizmente, quando você lida com o povo é assim. Estamos falando de famílias de baixa renda e sem recursos."

Criticando a burocracia, ela afirma que 70% dos recursos estão na conta bancária e que o restante já foi gasto. "Pedimos um aditivo para poder finalizar. Os preços mudaram. O preço da tilápia subiu muito, assim como o adubo. Vou entregar os viveiros e alguém vai ter que entregar os peixes."

A diretora da ONG nega qualquer irregularidade e ressalta que esse foi o seu primeiro contrato público. / A. R.

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