Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas
Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas

Tarcísio Freitas prioriza agenda em SP, onde deverá disputar o governo como nome de Bolsonaro

Nascido no Rio, ministro da Infraestrutura tem participado de palestras e encontros; para Planalto, imagem de tocador de obras pode agradar ao eleitorado fiel ao presidente

André Borges/Brasília e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 05h00

Disposto a concorrer ao cargo de governador de São Paulo nas eleições deste ano, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, tem turbinado sua agenda no Estado. Nos 24 dias úteis em que trabalhou neste ano, descontado o prazo de férias, o ministro dedicou mais de um terço de seu tempo a visitas presenciais a São Paulo.

Em nenhum mês anterior de sua gestão, desde janeiro do ano passado, o ministro esteve tanto tempo no Estado. Pela legislação eleitoral, ele poderá ficar no comando da Infraestrutura até o dia 2 de abril, quando terá de deixar o cargo para entrar em campanha.

Nascido no Rio e de formação militar,  Tarcísio, de 46 anos, foi opção pessoal do presidente Jair Bolsonaro para concorrer ao governo paulista. Apesar de ser um “forasteiro” no Estado e ter construído sua vida profissional entre Rio e Brasília, o ministro, na avaliação do Palácio do Planalto, venderia a imagem de tocador de obras, o que poderia agradar ao eleitorado de São Paulo que continua fiel a Bolsonaro.

Levantamento feito na agenda do ministro neste ano mostra que Tarcísio passou a se dedicar a eventos em São Paulo. Entre janeiro e fevereiro, foram oito agendas presenciais no Estado, incluindo palestras a investidores sobre “realizações do governo federal na infraestrutura” e encontros com empresários. No dia 1.º de fevereiro, sobrevoou áreas de São Paulo afetadas pelas chuvas.

Durante uma aula magna realizada no dia 11, na Faap, para um curso de pós-graduação online em agronegócio, Tarcísio exaltou o número de concessões federais, incluindo até as de Minas e Energia, que não estão sob seu comando.

‘Missão’

Há uma semana, em uma palestra a investidores na capital paulista, falou de planos de governo, caso seja eleito. “Chegando lá, a gente vai vender a Sabesp”, disse, ao comentar sobre a privatização da empresa estadual de saneamento. Em seguida, foi mais certeiro quanto à disputa estadual. “Eu nunca imaginei na minha vida que ia ser ministro. Governador de São Paulo? Nunca passou pela cabeça. Mas enfim, dá para se preparar bem para a missão e fazer um bom trabalho? Dá”, declarou Tarcísio. Ontem, em evento que não entrou na agenda oficial, o ministro visitou a sede regional do Republicanos, em São José do Rio Preto. Ao falar sobre sua filiação, disse que está “animado e com fé”.

O espaço dedicado a São Paulo nas agendas presenciais do ministro neste mês de fevereiro – sete visitas ao Estado – supera todos os demais meses de sua gestão à frente do ministério e mostra que o Estado nunca esteve tão presente nos compromissos oficiais.

Durante o primeiro trimestre do ano passado, quando nem sequer se cogitava sua candidatura ao Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio esteve em São Paulo em duas ocasiões. Questionado sobre a intensidade de compromissos em São Paulo, o ministro afirmou, por meio de sua assessoria, que “as idas a São Paulo sempre foram constantes por conta da natureza do trabalho realizado no Ministério da Infraestrutura” no Estado.

A presença de Tarcísio em São Paulo causa reação do governo João Doria (PSDB) e movimenta a disputa em São Paulo. O vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB) é pré-candidato; Fernando Haddad (PT) e Márcio França (PSB) também podem concorrer em outubro.

Embate

Hoje, Tarcísio estará ao lado de Bolsonaro, em São José do Rio Preto, para participar da inauguração de uma travessia urbana de 18 quilômetros que começou na gestão Dilma Rousseff (PT) e se arrasta desde 2013. O evento, que não terá a presença de representantes do governo estadual, deve inaugurar uma guerra de narrativas que vai pautar a disputa pelo Bandeirantes. O governo paulista acusa Tarcísio de “jogar contra” e sabotar São Paulo em sua gestão, enquanto aliados do ministro dizem que ele acerta ao investir no Estado sem passar “pelo cofre” de Doria.

Entre os projetos questionados pelos paulistas estão a ponte Santos-Guarujá, o trem Intercidades até Campinas; as obras da Hidrovia Tietê-Paraná, a ampliação da Rodovia Rio-Santos e o piscinão Jaboticabal. Neste caso, o Bandeirantes alegou estar esperando R$ 300 milhões de financiamento do governo federal, e decidiu fazer a obra com verba própria. “Engenheiro de obra pronta. A realidade é que passou o governo inteiro jogando contra São Paulo”, disse o presidente do PSDB-SP Marco Vinholi.

Ex-secretário de Doria na Prefeitura e hoje um dos principais aliados de Tarcísio em São Paulo, Filipe Sabará saiu em defesa do ministro. “São Paulo tem o segundo maior orçamento do Brasil e investe muito em marketing. Tem recursos próprios. Não vejo sabotagem.”

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