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Tampa da panela

Como tudo o que não tem remédio remediado está, o PT desistiu de protestar contra a condenação dos seus no mensalão. Dá graças a Deus de as prisões terem sido decretadas logo agora para decantar o efeito sobre as eleições de 2014 e se prepara para a volta do cipó de aroeira nas costas do PSDB.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h07

Os petistas não vão espernear pelo que não tem mais jeito; vão cobrar o que ainda não foi feito: o julgamento do mensalão mineiro, cujo réu mais conhecido é o deputado, ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo.

Os tucanos sabem o que os aguarda e já elaboram a receita do antídoto. A palavra de ordem é não reagir contra a eventualidade do julgamento em ano eleitoral, avisando que, se condenado, Azeredo terá de deixar o partido e dizendo que quanto mais cedo o processo for examinado melhor. Isso porque, segundo eles, levantada a "tampa da panela", ficarão muito claras as diferenças entre os dois casos hoje abordados pelo viés da semelhança.

O mensalão do PT foi um esquema em que os instrumentos e o dinheiro do Estado foram postos a serviço do projeto de poder de um partido, em âmbito nacional, para comprar apoios no Congresso.

O do PSDB, dirão os tucanos, foi um episódio específico circunscrito a Minas onde três empresas estatais patrocinaram um evento oficial, pagaram à agência de publicidade de Cristiano Paz (agora condenado e sócio de Marcos Valério) que repassou parte dos recursos à campanha de Azeredo pela reeleição (perdida) em 1998.

Caixa dois. Este poderia ser o argumento de defesa do tucanato. Mas, cumpre registrar, com desvio de verbas públicas. Ademais, como deixou claro o Supremo Tribunal Federal na ação 470, não importa a destinação do dinheiro, e sim o ato de corrupção.

O revide do PT, afirma-se no PSDB, terá um efeito bumerangue: dois personagens do caso, Clésio Andrade e Walfrido dos Mares Guia, são ligados ao governo federal. Andrade era candidato a vice de Azeredo naquela eleição de 98, hoje senador pelo PMDB, e Walfrido, o chefe da campanha.

Tudo bem, ele tem mais de 70 anos e, como a lei lhe faculta o benefício da contagem de prescrição pela metade do tempo, deve livrar-se de condenação. Esta é uma questão jurídica. Sob o aspecto político, será citado no julgamento ou na imprensa como cabeça do esquema. Além do que, não há como se abstrair o fato de que foi ministro do então presidente Lula da Silva, ainda é amigo dele e o recebe em casa quando o ex-presidente passa por Belo Horizonte.

Resumo da ópera: o PSDB vai, mas tentará levar junto o PT a fim de não deixar que o mensalão mineiro saia de graça para petistas nem para pemedebistas.

Breve tempo. O processo do mensalão mineiro pode ser posto em julgamento nas proximidades da data em que foram examinados os embargos infringentes dos réus do caso petista.

O relator é o ministro José Roberto Barroso que, segundo consta, está empenhado no exame acelerado dos autos.

Providencial. Recuperando-se de uma crise da diverticulite que carrega há anos, Fernando Henrique Cardoso não foi recentemente a duas cerimônias em que teria de se encontrar com a presidente Dilma Rousseff.

O ex-presidente está bem, embora o mesmo não se possa dizer da relação com a chefe da nação, que já foi de afeto e admiração mútuos, mas azedou desde o ano passado, quando os dois trocaram palavras fortes pela imprensa devido à defesa que Dilma fez de um ataque de FH a Lula.

De onde digamos que a convalescença (seletiva) vá durar mais ou menos até outubro de 2014.

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