Suspeitos miravam as emendas de deputados federais

Grampo flagrou conversas entre o lobista e outros integrantes do esquema sobre projetos de quatro parlamentares paulistas

O Estado de S.Paulo

16 Abril 2013 | 02h14

A Operação Fratelli - missão integrada da Polícia Federal e Ministério Público - revela que a organização criminosa montada para fraudar licitações de 78 prefeituras paulistas expandiu seu raio de ação ao Congresso em busca de recursos de emendas parlamentares.

Escuta da PF flagrou contatos do suposto lobista do esquema, Osvaldo Ferreira Filho, o Osvaldinho, com integrantes do grupo. Eles citam emendas de quatro deputados paulistas, Cândido Vaccarezza, ex-líder do governo na Câmara e ex-tesoureiro do PT, Otoniel Lima (PRB), Aldo Rebelo (PC do B), atual ministro dos Esportes, e o pastor Marco Feliciano (PSC).

"Dá uns 4 milhões, mais ou menos", diz Osvaldinho a um homem conhecido por Betão. "Anota aí, Marco Feliciano, um milhão, Otoniel, um milhão. Tem mais um deputado do PP, eu não lembro do nome. Dá 4 milhões."

Osvaldinho foi assessor, entre 2002 e 2010, de Edson Aparecido, secretário-chefe da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin (PSDB) - período em que Aparecido exerceu mandatos de deputado estadual e federal. Empresas do Grupo Scamatti, que o Ministério Público sustenta ser um "conglomerado de corruptores", são doadoras de campanha do número 2 do governo tucano.

Um grampo pega Olívio Scamatti - apontado como líder da quadrilha - informando a seu interlocutor que "os 585 mil do Aldo do Esporte já estão liberados". Outra interceptação mostra negociação direta entre o empresário e uma servidora pública, Denise Cavalcanti, que trabalhava no gabinete de Vaccarezza. O teor desse diálogo, captado em 28 de maio de 2010, reforça a suspeita dos investigadores sobre o poder de infiltração da organização na Câmara.

Scamatti e Denise tratam de valores provavelmente relativos a uma emenda para o município de Mirassol. Denise liga para Scamatti e pergunta "se o valor do processo de Mirassol não foi readequado" - na época, ela era assessora de Vaccarezza. Denise diz ao empresário que, "para ter o valor acima", no caso da prefeitura daquele município, "é preciso a interferência do Vaccarezza". Diz que está com o deputado e que vai pedir a ele que "ligue para o ministro", mas não menciona o nome da pasta.

Comum. "Conheço o Olívio, encontrei com ele quatro ou cinco vezes", disse Vaccarezza. "Conversei uma vez em Brasília. Ele me procurou diretamente falando de obras de uma prefeitura. Mas nunca me pediu nada. É comum empresários quererem apresentar as suas empresas. Isso não é um problema."

Sobre emendas, o petista disse: "Minha relação foi sempre com prefeitos. (Olívio) queria me conhecer, conversar, eu era líder do governo. Mas nunca pediu ajuda para liberar obra. A Denise foi uma assessora que demiti mais ou menos em 2010 porque fiz uma reestruturação do meu gabinete. Eu não tinha conhecimento dessa conversa (Olívio com Denise). Perdi o contato com ela completamente. Não existe essa emenda (Mirassol)."

"Nunca conversei com ele (Olívio) ou com esse pessoal", disse o deputado Otoniel. "Destinei R$ 1 milhão uma vez para Votuporanga, só que a emenda não foi empenhada. Acho estranho esse negócio de citar meu nome. Não trato nem com eles (empresários). Se tiver que falar, falo direto com a prefeitura."

Por sua assessoria, Aldo Rebelo disse que não conhece Scamatti e que todas as emendas "são solicitadas por prefeitos". "A execução orçamentária das emendas é de exclusiva responsabilidade das prefeituras."

Feliciano, também via assessoria, disse que não fala com lobistas e que suas emendas estão disponíveis no site da Câmara. / FAUSTO MACEDO e FERNANDO GALLO

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