Suspeitos de tortura durante ditadura serão convocados logo a depor

Comissão da Verdade faz balanço e calcula em 50 mil as vítimas do regime militar

Vannildo Mendes, de O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 02h05

BRASÍLIA - No primeiro balanço do ano, realizado em reunião com representantes de 30 comissões estaduais e municipais de todo o País, a Comissão Nacional da Verdade informou ontem, em Brasília, que dezenas de agentes da repressão já estão identificados e serão convocados para depor sobre episódios ocorridos no País entre 1946 e 1985 - do início da redemocratização, após a ditadura de Getúlio Vargas, até o fim do regime militar de 1964. A lista inclui militares - policiais e civis - e empresários. Entre estes, estariam pessoas que financiavam a repressão, cediam imóveis para prisão e torturas ou até participavam de ações.

Até agora, a comissão tomou 40 depoimentos, de vítimas e acusados de autoria de crimes - dos quais, segundo a assessoria da comissão, 12 são antigos agentes da repressão. Nas contas do colegiado, pelos dados obtidos até agora, cerca de 50 mil pessoas teriam sofrido algum tipo de abuso durante o período por ela investigado.

Entre os convocados a depor nas próximas sessões estão os supostos autores do assassinato do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido em janeiro de 1971 - dois dos três militares do Exército que teriam torturado e morto o deputado (o outro já morreu).

'Exibicionismo'. Pinheiro não quis confirmar que eles sejam de fato suspeitos do crime. A propósito do episódio, ele criticou no encontro o que chamou de "exibicionismo" e "busca de notoriedade" de alguns membros da comissão. "Fique bem claro que não estamos participando de nenhum campeonato de protagonismo, nem queremos ter o monopólio da luta pela verdade", avisou o novo coordenador da comissão. Ponderou que se tratava de uma crítica genérica - não citou nenhuma vez, nominalmente, o trabalho de Cláudio Fonteles, que ocupava o posto até janeiro e que não estava presente na reunião. Mas censurou iniciativas de conselheiros que, como Fonteles, dão entrevistas para antecipar conclusões de investigações.

"Não dá para sermos como aquele que abre a porta da geladeira, vê luz e começa logo a dar entrevista. Muita vez o açodamento em divulgar um documento, um depoimento, põe por terra um trabalho cuidadoso de investigação e identificação de depoentes", queixou-se Pinheiro.

Durante a reunião, foi anunciada ainda a criação de subcomissões temáticas da Comissão Nacional - como a de mulheres vítimas da repressão. Discutiram-se ainda a metodologia de trabalho e a convocação dos próximos depoentes.

A ideia do grupo é fechar o relatório parcial, com todos os depoimentos tomados, em dezembro deste ano - o que inclui a análise de cerca de 30 milhões de páginas de documentos. A comissão encerra suas atividades no dia 16 de maio de 2014, quando um relatório final será entregue à presidente Dilma Rousseff.

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