SP desigual: de R$ 600 a R$ 5 mil

Morador de Marsilac leva 8 meses para ganhar o salário recebido por quem vive em Moema

O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h04

No mapa, 38 quilômetros separam Marsilac, o distrito mais pobre de São Paulo, de Moema, o mais rico. No extremo da cidade, a renda média mensal per capita é de R$ 600. Na área nobre, chega a R$ 5 mil. Segundo o retrato da desigualdade divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2010, para cada paulistano considerado rico há um grupo de nove pobres.

A comparação entre as duas pontas da tabela de rendimento mostra que o morador de Marsilac tem de trabalhar oito meses, em média, para alcançar o ganho obtido em 30 dias por quem mora em Moema. Diferença que está diretamente relacionada ao grau de escolaridade dos dois distritos da zona sul. O primeiro é o que concentra a menor população alfabetizada: 91,2%. O segundo tem a maior, com 99,6%. A média da cidade é de 96,9%.

O censo realizado no ano passado pelo governo federal mostra ainda que as periferias das zonas sul e leste concentram os dez distritos com mais pobres da capital. Nesse universo, a variação de renda não é alta: R$ 150. Já entre os mais ricos, que estão espalhados pela zonas oeste, sul e centro, a diferença no rendimento mensal chega a R$ 2 mil.

Mas a desigualdade não é determinada em São Paulo apenas pelos dados econômicos. Para quem mora na periferia e vive com até um salário mínimo, a qualidade de vida está relacionada também às condições de infraestrutura oferecida pelo poder público. Em Marsilac, a maioria dos moradores não tem comprovante de endereço. Desde 2002, a distribuição das correspondências é feita pela presidente da associação do bairro.

"Tem gente que não consegue emprego porque não tem como comprovar onde mora. Outros ficam sem atendimento médico. Dois rapazes morreram soterrados aqui há seis meses porque o socorro não conseguia encontrar o endereço. Não temos sinal de celular nem internet rápida", diz Maria Lúcia Cirillo, que comanda a Associação Comunitária de Engenheiro Marsilac e Adjacências (Acoema).

Quase metade da população (46%) com 10 anos ou mais em Marsilac não tem renda. Na outra ponta, aparecem República, Bela Vista e Consolação, no centro de São Paulo, que hoje têm um perfil de ter moradores mais jovens, sem filhos, que dão prioridade ao trabalho. Em todos eles, mais de 76% dos moradores possuem renda.

Barulho. Entre os ricos, as reivindicações mudam. Saem os pedidos por infraestrutura básica e entram as demandas por planejamento viário e controle da poluição sonora. Dona de um estúdio de pilates em Moema, a empresária e personal trainer Stella Krieger, de 37 anos, reclama do barulho dos aviões do Aeroporto de Congonhas e do trânsito. Fora isso, diz "se orgulhar" da região. "Tem escola, restaurantes, academias. Tenho a sorte de trabalhar e morar aqui, e assim ganho tempo e qualidade de vida".

Apesar de Moema ser o distrito mais rico, o lugar em São Paulo com menos miseráveis é o Alto de Pinheiros, na zona oeste - lá, somente 0,25% da população ganha até meio salário mínimo. Em Cidade Tiradentes, no extremo leste, só 17 moradores vivem com mais de 20 salários mínimos por mês.

Para o analista socioeconômico do IBGE Jefferson Mariano, os dados mostram que o desenvolvimento em São Paulo ainda não ultrapassou o centro expandido. "São Paulo poderia se expandir para a periferia e não o faz. Isso porque as grandes empresas de mão de obra intensiva, que poderiam migrar para as extremidades e desenvolvê-las, estão saindo da cidade. E o centro financeiro e os serviços continuam nas regiões de sempre", explica. / ADRIANA FERRAZ, NATALY COSTA, RODRIGO BURGARELLI e WILLIAM CARDOSO

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