'Sou o 2º poste do Lula', afirma Haddad

Em discurso na Avenida Paulista, prefeito eleito exalta padrinho político e admite que, se o eleitor quiser, poderá ficar oito anos no cargo

O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 03h00

O prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), ironizou ontem a fama de "poste", atribuída a ele na campanha. Na festa de comemoração de sua vitória, na Avenida Paulista, Haddad fez piada com o apelido e citou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como responsável por sua eleição.

"Sou o segundo poste do Lula. Tem alguém candidato a poste aqui?", perguntou Haddad, do alto do trio elétrico, numa referência à presidente Dilma Rousseff, que também foi chamada assim quando concorreu à sucessão de Lula, em 2010.

A uma plateia estimada em 8 mil pessoas, o prefeito eleito admitiu, ainda, que pode ser candidato à reeleição e ficar oito anos no poder, se a população quiser. "Nós vamos trabalhar quatro anos, 365 dias por ano, 24 horas por dia para a gente mudar essa cidade", disse Haddad. O público gritou "oito", numa alusão a um segundo mandato. Ele sorriu e respondeu: "Oito".

Lula não foi à festa nem compareceu ao pronunciamento feito antes por Haddad para não ofuscar o pupilo. "Hoje, o dia é do Fernando", argumentou, segundo relato de amigos que conversaram com ele à noite. O ex-presidente telefonou para Haddad, emocionado, e o cumprimentou. Dilma também ligou. O candidato derrotado do PSDB, José Serra, telefonou bem mais tarde. "Ele reconheceu o resultado das urnas e disse desejar que nós façamos um ótimo governo em São Paulo", contou o petista.

Na Avenida Paulista, Haddad adotou o mesmo mote de Dilma sobre a pobreza e prometeu erradicar a miséria em São Paulo. "Erradicar a pobreza, acabar com a miséria é não aceitar que alguém passe fome, que não tenha educação, não tenha cultura", insistiu. Haddad falou em mudança, citou "a comunidade LGBT, todas as religiões, todas as crenças, todas as formas de ver o mundo" e garantiu o respeito à diversidade. Foi uma referência à polêmica sobre o chamado "kit gay" durante a campanha.

Muro da vergonha. Antes da festa, no primeiro pronunciamento após a eleição, Haddad pregou a união das forças políticas da cidade e afirmou que vai governar "acima de interesses individuais e partidários". Disse que pretende acabar com o "muro da vergonha" que separa a cidade rica da pobre e fez críticas indiretas ao prefeito Gilberto Kassab (PSD).

Escondido na campanha, o deputado Paulo Maluf (PP) compareceu ao hotel Intercontinental, nos Jardins, onde Haddad fez o pronunciamento. Por recomendação do PT, Maluf entrou no hotel pela garagem e acompanhou o discurso do prefeito eleito bem perto dele. "Sempre faço política a favor, nunca contra", comentou Maluf.

Haddad agradeceu a vitória a Lula, a Dilma, ao PT e aos partidos aliados. Fez homenagem ao deputado Gabriel Chalita (PMDB), que o apoiou no 2.º turno, ao vice-presidente Michel Temer, mas não citou a ministra da Cultura, Marta Suplicy (PT) nem Maluf.

"É hora de atrair, unir e estimular as forças vivas e o pensamento paulistano para um trabalho acima de interesses individuais e partidários", afirmou o prefeito eleito, pouco antes de se dirigir para a festa na Paulista.

O hotel onde Haddad fez o pronunciamento foi o mesmo onde Lula comemorou suas duas eleições presidenciais. "Meu objetivo central está plenamente delineado, discutido e aprovado pela maioria do povo paulistano: é diminuir a grande desigualdade existente em nossa cidade; é derrubar o muro da vergonha que separa a cidade rica e a cidade pobre."

O pronunciamento de Haddad ganhou ares de superprodução, com direito a música anunciando sua chegada em um salão enfeitado com balões vermelhos e brancos. Animados, militantes do PT vestiam camisetas com os dizeres: "O futuro venceu. São Paulo oPTou pelo novo".

Para o futuro prefeito, a capital paulista tem de voltar a ser "farol e antena". "Farol para iluminar seus passos e os passos do Brasil. Antena para captar o que existe de mais moderno e para transmitir o que tem de mais diferenciado para o nosso País e para o mundo", argumentou.

Apesar de ter feito um discurso pregando a união, Haddad não mencionou Serra nem o PSDB. Deu estocadas em Kassab, sem citar o nome dele, ao dizer que a Prefeitura não fez o seu papel de desenhar políticas urbanas de desenvolvimento. O prefeito eleito destacou que São Paulo "não é uma ilha política tampouco uma cidade de muralhas".

Na campanha, Haddad foi acusado de querer promover uma gestão "estatizante", principalmente na área de saúde. O programa de governo não é claro em relação às parcerias com as organizações sociais, que administram hospitais e estabelecimentos de saúde.

Projetos. "Sei que contarei com o apoio decisivo do governo da presidenta Dilma, mas potencializarei esse apoio apresentando propostas e projetos criativos e irrecusáveis", disse o futuro prefeito. "São Paulo precisa firmar parcerias vigorosas na esfera pública com o governo federal e com o governo estadual e, na esfera privada, com o que existe de mais avançado em pensamento e em tecnologia no mundo."

Professor licenciado da USP, Haddad afirmou que pretende atrair a intelectualidade com seu projeto. "O primeiro passo que quero dar, a partir de hoje, é fazer com que a Prefeitura recupere o seu papel de liderar as forças criativas e sociais da cidade", disse o prefeito eleito.

Transmitido ao vivo por emissoras de TV, o discurso de Haddad foi acompanhado por militantes petistas que celebravam a vitória no Bar Brahma, no centro. Parte do grupo, no entanto, reclamou do "tom catedrático e professoral" de Haddad. Ali estavam cerca de 300 petistas, vestidos de vermelho, que comemoravam ao som de samba. / BRUNO LUPION, FERNANDO GALLO, JULIA DUAILIBI, VERA ROSA e WILSON BALDINI

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