O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h03

Falar o português,

primeira tarefa de todos

Haitiana e "amazonense de coração" há 28 anos, a enfermeira Marie Ketly Vibert Franceschi, de 58, criou há seis meses a Associação dos Trabalhadores Haitianos no Amazonas.

A entidade tem CNPJ, mas não conseguiu ainda construir uma sede própria. "Lutamos para ter essa sede porque queremos ser um porto seguro para tentar encaminhar outros haitianos que chegam na cidade em busca de postos de trabalho", diz a enfermeira.

De acordo com a Polícia Federal, pelo menos 30 haitianos procuram a sede em Manaus, a cada dia, para conseguir vistos provisórios. Marie costuma abordá-los lá ou nas igrejas, porto seguro de todos os haitianos que chegam à capital amazonense depois de passar pelo primeiro anfitrião no País - o padre Gonçalo, em Tabatinga, na fronteira do Brasil com a Colômbia.

"Alguns dos que chegam são muito desconfiados, mas se sentem seguros quando percebem que falo a língua deles", diz. Segundo Marie, embora o Ministério do Trabalho no Amazonas tenha organizado uma força-tarefa para ajudar os haitianos na cidade, ainda há muito a ser feito. "O imprescindível é ajudar com cursos de português assim que chegam". / LIEGE ALBUQUERQUE

PONTO DE PARTIDA

Santina, a freira, tradutora

e 'mãe' das haitianas

A freira gaúcha Santina Perin, de 71 anos, morou 22 anos no Haiti e voltou de lá para o Rio Grande do Sul apenas dois meses antes do terremoto. De lá, sua congregação, a Sagrado Coração de Maria, enviou-a para Manaus logo que os primeiros haitianos começaram a chegar à cidade, depois do terremoto. Ela é a tradutora oficial do creole (o dialeto do Haiti) no grupo de padres e freiras católicas que oferecem teto, comida e toda espécie de ajuda aos haitianos no Amazonas.

Foi dispondo de suas "últimas economias" que a freira Santina chegou a Manaus. Ela mora numa casa ao lado de um dos dez abrigos de imigrantes mantidos pela Igreja Católica, onde vivem hoje 30 mulheres haitianas que chegaram sozinhas. "A maioria é de homens, por isso reservamos uma casa só para elas", explica. Há quatro bebês na casa e duas crianças de 12 anos.

Todas na casa estão aprendendo a bordar, num curso promovido pelo governo do Estado. "Pelo menos onze delas estão empregadas em casas de família. Penam pela diferença de língua, mas são muito trabalhadoras e prendadas", afirma Santina. Para ela, antes de trabalho, as haitianas precisam aprender o português - mas os cursos ainda não atendem a todos. / L.A.

EM FAMÍLIA

Monique viajou grávida e

cria o 1º 'haitiano brasileiro'

Os três filhos maiores de idade ficaram no Haiti, mas Agnaldo veio para o Brasil no ventre da mãe, Marie Monique Demexat Valerius, de 40 anos. Há quase nove meses, o menino nasceu em uma maternidade pública de Manaus e foi o primeiro bebê de pais haitianos nascido em solo brasileiro, segundo os padres que atuam nas igrejas católicas que recebem os imigrantes.

"Foi duro fazer tão longa viagem grávida, mas valeu a pena porque, apesar das dificuldades, este País tem sido muito solidário com a gente", diz Marie. Ela e o marido, Anoux Valerius, de 41 anos, estão amadurecendo a ideia de mudar para São Paulo. "É que sou motorista e mecânico e aqui, até agora, só consegui emprego de faxineiro", diz o haitiano.

Valerius se diz feliz por ter conseguido trabalho, mas sonha em voltar a exercer sua profissão. "Quero conseguir mandar dinheiro para meus filhos e, nosso sonho, trazer os três para o Brasil: Besson e as meninas Minerve e Mickerlange." / L. A.

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