Soltar amarras

 São muitos os desafios para reequilibrar a economia brasileira e recolocá-la no caminho do crescimento. Alguns deles são estruturais e, portanto, seria ilusão considerar que uma ou duas canetadas teriam o condão de promover os reacertos necessários. 

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2014 | 22h00

Um dos problemas que mais têm afetado o desempenho econômico – a falta de confiança na eficiência da política econômica, que paralisa investimentos –, curiosamente, está entre aqueles de mais fácil superação. É quase automático que, definida a eleição, qualquer que seja o vitorioso, a desconfiança tende a refluir porque ela é resultado das incertezas que toldam o ambiente – e não da falta de perspectivas.

Quem quer que esteja no comando, a partir de 2015, terá de promover mudanças na condução da economia. O experimento da chamada “nova matriz econômica” tentado no atual governo, que busca a reeleição, não deu certo. A crença de que a simples redução dos juros impulsionaria os investimentos e estes, com a ampliação da oferta, sustentariam uma expansão ilimitada do consumo, sem as pressões inflacionárias inevitáveis, não foi confirmada pela realidade. 

Sem a ajuda da economia global, que vem promovendo ajustes, mas ainda patina na rota do crescimento, os magros resultados da estratégia oficial levaram o governo a cair na tentação de intervir, com medidas pontuais e parciais, na dinâmica dos mercados. Esforços, paulatinamente crescentes, no sentido de represar índices, provocaram distorções e desequilíbrios que exigirão inevitáveis ajustes.

No campo fiscal, o problema é como restabelecer a transparência no manejo das contas públicas, abandonando a preferência por receitas não recorrentes e triangulações capciosas entre o Tesouro Nacional e os bancos oficiais. No caso da inflação, a questão está em promover o reajuste de preços relativos, a começar pela recuperação dos preços administrados, como os dos combustíveis e da energia elétrica, com um mínimo de turbulência.

A taxa de câmbio, preço relativo de enorme relevância, terá de merecer tratamento especial. O problema é encontrar o ponto certo em que o câmbio não fique tão desvalorizado que reforce pressões inflacionárias, nem tão valorizado que amplie os déficits externos e os riscos de crise cambial. Em ambiente internacional instável, com tendência de alta de juros nos Estados Unidos, é tarefa incontornável e das mais complicadas.

Corrigir esses desajustes aponta para uma única direção: a de soltar amarras e descomprimir o ambiente produtivo. Desanuviar o horizonte, com menos ativismo governamental, mais estímulos horizontais e redução das burocracias deveria ser o roteiro para dar mais previsibilidade à trajetória econômica.

Mesmo se bem sucedido, um programa de correção de todos esses desequilíbrios não garantiria uma reversão rápida do atual quadro de inflação alta e crescimento baixo. Nas projeções do mercado, feitos os ajustes, a inflação desceria a 5,5%, em 2018, ao mesmo tempo em que o crescimento chegaria a 3% já a partir de 2016. Em 2015, ano de arrumação da casa, a inflação continuaria a bordejar o teto da meta e a economia, em recuperação muito modesta, cresceria ligeiramente acima de 1%.

Ao mesmo tempo, uma barreira estrutural teria de ser transposta para que o crescimento pudesse almejar ir além desses 3% sem bater no muro de um surto inflacionário. Essa barreira deriva de uma equação de difícil solução, que combina restrições demográficas com dificuldades para elevar a produtividade da economia. 

O crescimento em ritmo lento da população em idade ativa disposta a trabalhar está contribuindo para reduzir o contingente de mão de obra à disposição no mercado de trabalho, o que tende a elevar os salários e a tirar competitividade das empresas. É crucial, para furar essa barreira, elevar a produtividade – o que só é possível com a formação de trabalhadores mais qualificados e a incorporação de tecnologias atualizadas, que assegurem eficiência às máquinas e aos processos. 

Não é um objetivo impossível, mas muito complexo, que exigirá perícia na execução de programas bem desenhados e tempo para frutificar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.