Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Sociedade vive momento paradoxal em que 'até quem está preso continua popular', diz FHC

Ex-presidente participou de palestra sobre o comportamento ético e convicção social em evento em São Paulo

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2018 | 21h46

Temos uma situação hoje no Brasil "paradoxal, onde até quem é preso continua popular", disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em palestra sobre o comportamento ético e convicção social em evento em São Paulo. O comentário veio no bojo de observações feitas ao descrever conflitos vividos pela sociedade em função de mudanças no comportamento e nas percepções em relação à política. Nesse sentido, fez menção também ao atentado à faca contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL) na quinta-feira passada. "Pinheiro Machado foi o último a ser esfaqueado, era senador. Qual é o efeito? Depende da narrativa", pontuou.

FHC disse que o Brasil está passando a limpo tradições, comportamentos e valores, muitos enraizados na nossa cultura, citando como exemplo a nomeação de familiares na sucessão de cargos políticos, o que a população muitas vezes entende como natural. "No passado se dizia que poder que não abusa não é poder. O que está acontecendo no Brasil é que a cultura está mudando e as instituições estão mudando. O que está na Constituição começa a ser percebido como ser o que deve valer", disse.

Segundo ele, grande parte das incertezas que acometem o País vêm dessa mudança de comportamento da sociedade e não unicamente das revelações da Operação Lava Jato, que mostraram um sistema de financiamento da classe política. "A dinâmica da sociedade fragmentou a antiga estrutura e as classes se movem com mais rapidez, e a sociedade se organiza em torno de interesses e não de setores da sociedade, com ideias progressivas e de integração", afirmou.

FHC ressaltou também que a tecnologia de informação, que promove a interconexão de pessoas e elimina as fronteiras, contribuiu para fazer com que informações que muitos políticos conseguiam manter como inacessíveis chegassem ao julgamento da sociedade. "Essas estruturas são mais relevantes do que o Estado-Nação", pontuou. FHC mencionou ainda que o sistema de decisão, como o que se vive hoje nas eleições, passou a incorporar julgamento quanto ao comportamento correto ou incorreto da classe política.

Durante a palestra, FHC lembrou várias vezes que escândalos de corrupção estiveram presentes ao longo da história da vida política brasileira e que o grande feito da Lava Jato foi mostrar a organização de um sistema de financiamento da classe política por meio do setor privado. "Esse sistema corrompeu a democracia. Foi isso que a Lava Jato demonstrou", disse. Para FHC, a constituinte de 1988, da qual ele participou, pecou por não limitar a criação de partidos. "Estávamos preocupados com a liberdade, dado que vínhamos de um regime militar", citou, lembrando que "em algumas ocasiões nem o habeas corpus funcionava". "A consequência foi a tremenda fragmentação do poder político, em função em parte de nossa matriz cultural, onde com algum poder as pessoas tentam chegar próximo ao cofre", comentou. 

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