Sobrevivendo entre pínus e tomates

Sobrevivendo entre pínus e tomates

BARRA DO CHAPÉU (SP) - Mais da metade dos 5.236 habitantes de Barra do Chapéu, no sudoeste do Estado de São Paulo, depende do programa Bolsa Família para sobreviver. A cidade, no Alto Ribeira, cercada por reservas florestais, não tem indústrias. Tampouco pertence ao bem-sucedido clube do agronegócio paulista. No mais rico Estado do País, ela é a cidade com maior proporção de dependentes do programa – 55,6% da população. Esses quase 3.000 beneficiados são parte de um universo que no final de 2013 alcançava, no Estado de São Paulo, 1,3 milhão de pessoas.

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h00

“O carro-chefe aqui é o tomate, mas só dá trabalho de cinco a seis meses por ano. Na entressafra, as famílias vivem exclusivamente da Bolsa”, conta a assistente social Grisélida Andriozi, do Serviço Social do município.


O dinheiro repassado pelo governo também garante comida na mesa de Alaíde Martins dos Santos, de 49 anos, moradora do bairro Ponte Alta, na zona rural. A dona de casa divide as refeições com os filhos Roseli, de 23 anos, Kelly, de 15, Carlos Eduardo, de 11, Pamela, de 6, e Jenifer, de 4. “Uso os R$ 321 que recebo por mês para comprar mantimentos, do contrário a gente passa fome”, disse. Ela conta que Roseli estudou até a oitava série, mas está desempregada e é obrigada a ir para a roça nas épocas de safra. Durante a colheita, ela trabalha das 5 às 17 horas e recebe cerca de R$ 35 por dia. “Quando esse trabalho acaba, a gente só tem a bolsa”, diz Alaíde.

Entressafra. As plantações de tomate de mesa se espalham pelas encostas e dividem o espaço com reflorestamento de pínus, que representa outro importante quinhão de trabalho para os moradores.

Raspar o tronco e instalar saquinhos para a coleta da resina ocupa o tempo, por exemplo, do agricultor Pedro de Souza, de 32 anos, durante a entressafra do tomate. Sua mulher, Franciele, de 16 anos, está grávida e recebe o Bolsa Gestação. Suas irmãs Franceline, 14 anos, Tauana, 13, e Taluani, de 7, estão na escola e no Bolsa Família. No total, a família recebe R$ 352 por mês do programa.

Para a assistente social Grisélida, os repasses do Bolsa Família já são tão importantes na cidade quanto as aposentadorias ou o emprego na prefeitura, principal empregadora da cidade. “Muitas famílias recebem de R$ 300 a R$ 400 por mês do programa e se acomodaram, não buscam empregos ou outros meios de vida. Se o programa acabar, vão passar necessidade.”

Famílias grandes. O prefeito Eduardo Fillietraz (PMDB) acredita que a baixa renda da população favorece a inclusão nos programas sociais. “Não tem ninguém passando fome, mas os empregos são de baixa qualificação e a grande maioria recebe um salário mínimo. Além disso, as famílias são numerosas, com grande número de filhos em idade escolar.”

Segundo ele, como as empresas de reflorestamento e os grandes produtores de tomate registram os trabalhadores nos períodos de safra, na entressafra essas pessoas ainda recebem o seguro desemprego. “Nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) cresceu 35% nos últimos cinco anos”, afirmou.

De acordo com a gestora do Bolsa Família na cidade, Flávia Sarti, 90% dos beneficiários do programa são mulheres e a maioria trabalha nas plantações de tomate.

Na entressafra, afirma a gestora, “essas mulheres ficam de três a cinco meses sem recursos para garantir a alimentação e o dinheiro do programa passa a ser a salvação.” Flávia conta que o número de beneficiados é alto porque todos os que têm direito são incluídos. “No final de 2011, visitei pessoalmente 1.600 domicílios e fiz o cadastro de todas as pessoas. Quem preencheu as condições entrou no programa.”

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