Sobral testa lealdade aos irmãos Gomes

Sobral testa lealdade aos irmãos Gomes

Candidato de Ciro e Cid conta com influência do clã na 5ª maior cidade cearense para reagir

Tiago Rogero, enviado especial a Sobral, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2014 | 03h00


No Becco do Cotovelo, tradicional ponto de debates políticos do centro de Sobral, já visitado por ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor de Mello, a “inteligência sobralense” diverge sobre a continuidade dos irmãos Cid e Ciro Gomes (PROS) no comando dos rumos do Ceará, ameaçada após oito anos no poder. 

Chamado de “prefeito” do Becco, o radialista Expedito Vasconcelos, de 69 anos, mantém na parede de sua cafeteria fotos de Cid e Ciro ao lado de “celebridades” políticas como a ex-governadora do Rio Benedita da Silva, da escritora Rachel de Queiroz e até do Padre Quevedo, famoso por participar de uma série do Fantástico, da TV Globo.  “Vai ser difícil um dia ter um governador melhor do que o Cid”, disse o chamado “prefeito do Becco” – ou “Elbow Street”, como diz a placa, influência do idioma inglês sobre a cidade. Em 1919, orgulham-se os sobralenses, cientistas ingleses e americanos foram até Sobral para comprovar, por meio da observação de um eclipse, um efeito previsto na Teoria da Relatividade. Outros são céticos sobre o papel dos irmãos no Becco do Cotovelo. “Nesta eleição, cada um defende seu corrupto preferido”, afirmou o corretor de imóveis Roberto Sales, de 40 anos.

Prefeitura. Mesmo desgastado politicamente, o prefeito de Sobral, Veveu Arruda (PT), reeleito em 2012 graças ao apoio de Cid e Ciro, conta com quase 90% de apoio na Câmara Municipal. Para a disputa da prefeitura em 2016, os Gomes preparam seu caçula, Ivo – cuja foto também está na parede da cafeteria de Expedito –, que nesta eleição tenta ser reeleito deputado estadual. “Em Sobral só existe um partido: o PFG, Partido dos Ferreira Gomes”, disse um ex-coordenador de campanha de Cid. 

Se na eleição para governador os Ferreira Gomes correm o risco de perder, em Sobral, reduto eleitoral da família, o quadro é diferente. Desde 1996, quando Cid Gomes (PROS) foi eleito pela primeira vez para a prefeitura da cidade, a quinta maior do Ceará, não houve um prefeito que não tivesse sido indicado pelos irmãos. 

Com a gestão muito criticada entre os 200 mil habitantes – ao contrário do “melhor prefeito da história de Sobral”, como é chamado Cid após seus dois mandados –, Veveu tem 18 dos 21 vereadores da Câmara. Entre os opositores, dois são do PV e um é do PROS, partido para o qual migraram Cid e Ciro após o rompimento com Eduardo Campos e o PSB. Em 2012, Veveu ganhou apertado do candidato de oposição Dr. Guimarães (PV): vantagem de cerca de 8 mil votos, o equivalente a 8% dos válidos. Desta vez, Dr. Guimarães é candidato a deputado federal. Em 2016, deve novamente se apresentar como principal nome de oposição aos Gomes. 

Outro que pode surgir é Zé Vytal (PTN), candidato a deputado estadual que, em Sobral, coordena a campanha do principal opositor dos Gomes na eleição para o governo: o senador Eunício Oliveira (PMDB). Após liderar a corrida eleitoral, Oliveira chegou ao último Datafolha, de quarta-feira, em empate técnico com o candidato de Cid e Ciro, Camilo Santana (PT), mas ainda numericamente à frente (39%, ante 37% das intenções). 

Sobral foi governada em 1996 por Cid, que já havia sido deputado estadual por dois mandatos. O ex-ministro Ciro Gomes não foi prefeito da cidade sertaneja, mas da capital, Fortaleza, em 1989. Sobral tem sua parte rica, com restaurantes chiques, um jóquei clube e até uma réplica do Arco do Triunfo, e bolsões de pobreza. 

Mãe solteira de quatro filhos, Marcia Maria de Souza, de 48 anos, mora num dos mais violentos bairros da cidade, o Sinhá Saboya. “Não gosto de morar aqui”, conta Marcia, que sustenta a casa com os R$ 170 que recebe do Bolsa Família, mais o que o filho consegue lavando carros. Mesmo sem esgoto tratado e queixando-se da falta de médicos, Marcia tem uma certeza na hora de votar: vai com os Gomes. “Tem muita gente que fala mal deles, mas fizeram muita coisa”, disse.

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