Sob pressão, relator revê quebra de sigilo da Delta nacional

Em sessão tumultuada, deputado petista Odair Cunha deu sinais de que desistiu de medida contra construtora investigada

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2012 | 03h08

Em sessão tumultuada, em que dois dos três depoentes optaram por ficar calados e em alguns momentos beirou a baixaria, o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), deu sinais ontem de que desistiu de defender a imediata quebra de sigilo da Delta Construções em nível nacional.

Acordo entre PT, PMDB e PSDB adiou para próxima terça-feira, dia 29, a votação de requerimentos com a abertura das contas da Delta e a convocação de três governadores supostamente envolvidos com o esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Cunha está sendo pressionado por PMDB e PT para poupar a empreiteira nas investigações e evitar a aprovação de requerimento a favor do fim do sigilo. Para voltar atrás, o relator argumentou que a Operação Saint-Michel, cujas apurações deverão chegar nos próximos dias à CPI, já abriu as contas da Delta nacional.

A Saint-Michel foi deflagrada pelo Ministério Público do DF, como continuidade da Operação Monte Carlo. "A Saint-Michel já fez a quebra de sigilo. Quero ver o que existe nessa operação", disse Odair. "O papel da Delta deve ser investigado, mas com método e análise para fazer a quebra de sigilo." Ele disse que analisará os autos da operação até terça-feira, dia da sessão administrativa da CPI. Só então decidirá se pedirá a quebra do sigilo.

Acordo entre lideranças do PT, PMDB e PSDB evitou a votação ontem de requerimento com a quebra de sigilo da Delta e de convocação de três governadores: o tucano Marconi Perillo, de Goiás; o petista Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, e do Rio, o peemedebista Sérgio Cabral.

A estratégia dos governistas é tentar aprovar na terça apenas a convocação de Perillo. Requerimento de autoria do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), apoiado pela maioria da CPI, pede preferência para a votação da convocação de Perillo. Os aliados, sobretudo petistas, alegam que as provas de envolvimento de Perillo com Cachoeira são incontestáveis, daí a urgência para convocar o tucano. Agnelo e Cabral também são alvo de pedidos de convocação, mas estão sendo blindados porque a maioria da comissão é de partidos aliados.

Rebuliço. Assim como Cachoeira, os depoentes preferiram manter-se calados. A exceção foi o ex-vereador Vladimir Garcez, do PSDB, que aproveitou a sessão para se defender e revelar uma série de amizades com políticos de todos os partidos. Sua fala causou rebuliço. O relator aproveitou para fazer duas dezenas de perguntas calcadas na relação do ex-vereador com o governador Perillo. Os tucanos protestaram, acusando Odair de ser parcial.

A confusão foi tamanha que os deputados Fernando Francischini (PSDB-PR) e Dr. Rosinha (PT-PR) por pouco não protagonizaram cenas de pugilato. Francischini fez piada com o comportamento de Odair: "O relator é uma 'tchutchuca' quando fala do Agnelo e um tigrão quando fala do Marconi Perillo". Os petistas reagiram, cabendo ao Dr. Rosinha cobrar seriedade de seu adversário político no Paraná. Irritado, Francischini levantou-se, disse saber onde o petista colocava suas emendas e ameaçou ir para cima do deputado. A "turma do deixa disso" separou os dois.

Há dois dias, após o término do depoimento de Cachoeira, Odair foi enfático ao defender a quebra do sigilo da Delta. A atitude desencadeou uma crise entre PT e o PMDB, apreensivo pelo fato de a investigação acabar atingindo Cabral, amigo do principal acionista da Delta, Fernando Cavendish. Os petistas temem que as apurações revelem eventuais ilegalidades em contratos entre o governo federal e a Delta, que é uma das principais empreiteiras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). / E. L.

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