AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
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Sob governo França, PR loteia Transportes em SP

Sigla, que no governo federal comanda a área há cerca de 15 anos, trocou toda a cúpula da secretaria e da Dersa; indicações foram feitas por aliado de Valdemar Costa Neto

Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2018 | 05h00

Primeiro partido a anunciar apoio à reeleição do governador Márcio França (PSB) em São Paulo, o PR realizou um desejo antigo no Estado e assumiu o comando de todo o setor de transportes, área que já controla no governo federal há cerca de 15 anos. A sigla trocou toda a cúpula da secretaria e da Dersa – estatal paulista responsável por obras rodoviárias que estão na mira da Operação Lava Jato – e vai executar um orçamento estimado em R$ 7,3 bilhões neste ano. 

As indicações, de acordo com fontes do governo e do PR, foram feitas pelo atual diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Mario Rodrigues Júnior, aliado do ex-deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP), condenado em 2012 no julgamento do mensalão. Embora não tenha mandato, Valdemar ainda mantém influência política, indicando nomes para cargos públicos, principalmente no setor de transportes. 

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Ex-presidente da Valec, estatal federal responsável pelas ferrovias, durante o governo Dilma Rousseff (PT), Rodrigues Júnior já foi diretor de Engenharia da Dersa durante o segundo governo do tucano Geraldo Alckmin (2003-2006).

Agora, mesmo no governo federal, indicou na cota do PR os engenheiros Mário Mondolfo para a Secretaria de Logística e Transportes, nomeado por França em abril, e Hamilton de França Leite para presidir a Dersa. Ambos trabalharam com ele na estatal paulista há 12 anos. 

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Mondolfo e França Leite substituíram Laurence Casagrande, que acumulava a pasta de Transportes e a presidência da Dersa. Casagrande foi indicado pelo atual secretário de Governo, Saulo de Castro, um dos principais auxiliares de Alckmin e mantido no Palácio dos Bandeirantes por França. Com a mudança de governador, Casagrande foi nomeado para comandar a Companhia Energética de São Paulo (Cesp).

Delação. Na Dersa, Rodrigues Júnior antecedeu no cargo o engenheiro Paulo Vieira de Souza. Assim como o antecessor, Rodrigues Júnior também é acusado de receber propina para favorecer empreiteiras implicadas na Operação Lava Jato. 

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Na delação premiada da Odebrecht, reveladas em abril do ano passado, o diretor da ANTT é acusado de receber R$ 1,2 milhão de propina para direcionar a licitação do Rodoanel Sul para o cartel formado por grandes empreiteiras em 2006. O dinheiro supostamente serviria para financiar campanhas eleitorais naquele ano.

Rodrigues Júnior também foi acusado de receber pagamentos indevidos, em espécie, pelos executivos Carlos Henrique Barbosa Lemos, ex-diretor da OAS, e Flávio David Barra, ex-presidente da Andrade Gutierrez Engenharia. Em depoimentos à Polícia Federal ambos relataram propina ao ex-diretor da Dersa também para direcionar a licitação do Rodoanel Sul.

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Também são atribuídas ao aliado de Valdemar Costa Neto as indicações da diretora administrativa da Dersa, Jandira do Amaral, e do diretor financeiro da estatal, Manuel dos Santos Rodrigues – que já trabalhou para as empresas Odebrecht, OAS e Mendes Júnior. 

Auditoria. Na diretoria de Engenharia, a nova cúpula do transporte promoveu o engenheiro Pedro Paulo Dantas, ex-gerente das obras do Trecho Norte do Rodoanel. Dantas é um dos responsáveis por aprovar os aditivos contratuais assinados com a empreiteira OAS e que estão sob suspeita de superfaturamento de ao menos R$ 55,6 milhões, segundo auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), e também sob investigação da força-tarefa da Operação Lava Jato.

Desde o ano passado, ainda durante o governo Alckmin, o PR negocia assumir o comando dos Transportes paulista. A negociação, no entanto, emperrou porque a sigla queria assumir o controle não somente da secretaria, mas também da Dersa, do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e da Agência Reguladora de Transportes de São Paulo (Artesp). Alckmin não cedeu. 

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Agora, segundo fontes do governo, o partido também deve indicar cargos nas diretorias regionais do DER, responsáveis pela pavimentação e estradas pelo Estado, e negocia espaço também na Artesp.

Defesa. O governo Márcio França (PSB) negou ter feito loteamento do setor de transportes ao PR e afirmou que “as indicações não são partidárias e sim técnicas, com profissionais experientes e sem nenhuma condenação que desabone suas carreiras”. 

Em nota, a Dersa afirmou que o secretário Mário Mondolfo foi nomeado pelo governador e é o responsável por “todas as nomeações administrativas necessárias”. A empresa disse que “é a maior interessada” nas investigações e que “está executando as obras do Rodoanel Norte dentro de rigorosa conformidade com a lei”. A estatal se manifestou em nome dos diretores citados. 

O diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres, Mario Rodrigues Júnior, negou, por meio de nota, ter feito indicações no governo França. “O diretor não participou ou participa de processos seletivos para cargos públicos ou privados.” Sobre as acusações de recebimento de propina, Rodrigues Júnior afirmou que “não comenta conteúdos cuja veracidade será submetida ao exame do Poder Judiciário”. Valdemar Costa Neto não quis se manifestar. O presidente nacional do PR, José Candelária, não havia se pronunciado até a conclusão desta edição.

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A assessoria de Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou que o tucano não é citado em nenhuma acusação. “Durante suas gestões, o ex-governador sempre exigiu que licitações e obras fossem realizadas seguindo o que determina a lei”. “Nenhum funcionário público está acima da lei e deve receber as punições cabíveis caso tenha cometido crimes contra a administração”. 

Odebrecht e Andrade Gutierrez afirmaram que colaboram com as investigações. A OAS não se manifestou. 

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