Sob alegação de 'bullying empresarial', Delta vai à Justiça para evitar falência

A Delta Construções anunciou, no início da noite de ontem, que entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça do Rio de Janeiro. A medida é um recurso usado por empresas em dificuldades financeiras, para evitar falência. Em nota de sua assessoria de imprensa, a construtora diz ser vítima de "uma espécie de bullying empresarial".

ALFREDO JUNQUEIRA / RIO, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2012 | 03h32

Também ontem à noite a empreiteira sofreu um revés, ao ter seu pedido de liminar negado pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que fosse suspensa a quebra nacional dos seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, decretada pela CPI do Cachoeira. A íntegra da decisão da ministra não havia sido divulgada até o fechamento desta edição, mas no sistema de acompanhamento processual do STF constava a informação da liminar indeferida.

Principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Delta tem sido alvo de denúncias de três meses para cá, desde que a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, revelou ligações entre diretores da construtora e o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Na sexta-feira, a holding J&F anunciou que havia desistido de comprar a empresa de Fernando Cavendish, alegando "crise de confiança e credibilidade". A Delta é alvo da CPI do Cachoeira no Congresso, tem executivos investigados pela PF e pode ser considerada inidônea pela Controladoria-Geral da União - o que a impediria de participar de novas licitações. No texto distribuído na noite de ontem, a Delta afirma que "várias administrações públicas estão deixando de honrar os pagamentos de obras já executadas", em razão das notícias do envolvimento de seus executivos em "supostos atos ilícitos".

A empresa afirma que pediu a recuperação judicial mesmo sem ter dívidas trabalhistas, previdenciárias e tributárias. "Os ativos patrimoniais e a receber são muito superiores à dívida atual com fornecedores e bancos." A nota ressalta que a empresa é responsável, direta ou indiretamente, pelo sustento de 80 mil famílias.

'Fôlego'. "A administração da Delta está informando à Justiça que todas as empresas do grupo são viáveis economicamente e possuem ativos relevantes e que estão aptas a efetuar as obras e serviços públicos e privados para os quais foram contratadas. Afirma ainda que pretende honrar suas dívidas de forma integral, mas que necessita do amparo judicial para recuperar seu fôlego financeiro", explica o texto.

Para cuidar de seu processo de recuperação judicial, a empreiteira contratou a consultoria internacional Alvarez & Marsal, que já autuou em processos semelhantes com a Varig e a Casa & Vídeo (rede de varejo com sede no Rio). "No cenário internacional, trabalhou no caso do banco Lehman Brothers", afirma a construtora.

Obras. A Delta foi a empresa que recebeu o maior volume de recursos federais de três anos para cá: R$ 2,4 bilhões, e tem mais de 300 contratos com 23 Estados e o Distrito Federal. Além de construção, a empreiteira atua em coleta de lixo em cidades como Rio e Brasília, concessão de rodovias e construção de linhas de transmissão de energia. No Rio, sede da empresa, a Delta prosperou a partir da gestão do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB). Cavendish e o peemedebista são amigos próximos. Na CPI, a divulgação de fotos de ambos e suas respectivas mulheres em festas e jantares na França e em Mônaco tornou Cabral um dos potenciais alvos da comissão. Nos cinco anos e cinco meses de gestão do peemedebista, a Delta faturou R$ 1,5 bilhão.

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