'Só há crise com perda da legitimidade', diz Dilma

Em entrevista à revista 'Veja', presidente nega momento turbulento com a base e diz que perder ou ganhar votações faz parte da democracia

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h06

Na véspera da viagem para a Índia, que começa hoje à noite, ameaçada de nova derrota na votação do novo Código Florestal e com uma base de apoio no Congresso cercada pela desobediência, a presidente Dilma Rousseff acha que não há crise nenhuma no governo, segundo entrevista que concedeu à revista Veja desta semana.

"Não há crise nenhuma. Perder ou ganhar votações faz parte do processo democrático e deve ser respeitado. Crise existe quando se perde a legitimidade. Você não tem de ganhar todas. O Parlamento não pode ser visto assim. Em alguma circunstância sempre vai emergir uma posição de consenso do Congresso que não necessariamente será a do Executivo", disse a presidente.

A rebelião na base aliada deve-se, principalmente, ao corte de R$ 18 bilhões nas emendas dos parlamentares ao Orçamento no ano em que serão renovadas as prefeituras e as câmaras municipais. Os aliados reclamam ainda que não conseguem nomear afilhados para cargos no governo e nas estatais.

Na entrevista, Dilma rechaça a política do "toma lá dá cá" que vem sendo praticada no País, a partir do governo de José Sarney (1985/1990). "Não gosto e não vou deixar que isso aconteça no meu governo", disse.

Segundo ela, as atuais rusgas com os aliados não têm relação com a troca de líderes do governo no Congresso. Ela tirou o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o substituiu por Eduardo Braga (PMDB-AM) e trocou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) pelo ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Dilma diz ser "facílimo" substituir um presidente tão carismático como Lula. Lembrou que foi ministra da Casa Civil por cinco anos e que aprendeu muito despachando com o antecessor. Para ela, Lula é o responsável por uma nova ordem mundial. "Lula teve momentos de gênio na política e um carisma que nunca vi em outra pessoa."

Nem por isso, os dois sempre concordam, segundo disse a presidente à Veja. Questionada se tem dificuldades em discordar do ex-presidente, disse que "nem um pouco". E lembrou que os dois já divergiram muito no passado, mas que no essencial sempre concordaram.

Collor. No auge da crise com a base aliada, o ex-presidente Fernando Collor fez um discurso no Senado no qual alertou Dilma de que perdera o cargo em 1992 por falta de sustentação no Congresso. A presidente disse à Veja que não leu o discurso.

"É preciso ter em mente que as grandes crises institucionais no Brasil ocorreram não por questiúnculas, pequenas discordâncias entre o Executivo e o Legislativo. As grandes crises institucionais se originaram da perda de legitimidade do governante."

A presidente contou, na entrevista, ter descoberto algo que não sabia quando era ministra. "O povo se identifica com você. Vê em você uma igual na Presidência. Por isso, o brasileiro se entrega, mostra como é caloroso. Ele te identifica na rua, grita seu nome, te abraça, te pega. Você sente que está fazendo aquilo de que ele precisa. É maravilhoso!"

Copa. A presidente Dilma disse ainda ter confiança de que não haverá nenhum problema para a realização da Copa da Fifa de 2014 no Brasil, apesar da polêmica sobre a venda de bebidas nos estádios e das dificuldades de um acordo no Congresso sobre o tema. "O Brasil fará a melhor de todas as Copas do Mundo. Querem apostar quanto comigo?", desafiou a presidente.

Empresários. Dilma relatou ainda, na entrevista, a conversa com empresários na última quinta-feira. Disse concordar que é preciso aumentar para pelo menos 24% a taxa de investimento real, mas defendeu abertamente um incremento no investimento privado no País. Sobre a guerra cambial, disse que o protecionismo não é a saída. "Isso não faremos", sentenciou.

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