Sítio de Valdeci é 'ilha' no meio do canavial

Em Andradina, assentados da Fazenda Primavera se rendem à pressão das usinas de cana da região

José Maria Tomazela e Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h05

O assentado Valdeci Rodrigues Oliveira, de 67 anos, um dos pioneiros e líder da Fazenda Primavera, é um dos que resistem às propostas de compra das usinas de cana-de-açúcar. Para ele, dar o título de propriedade logo após a instalação no lote foi um erro. "A emancipação é praticamente o fim da reforma agrária", diz o assentado, que recebeu a escritura da propriedade das mãos do ex-presidente João Figueiredo, em 1982, ainda na ditadura.

"Estou aqui há 34 anos, criei minha família e sobrevivo da pecuária leiteira, mas é tudo por amor à terra", conta. "Minha filha Solange é professora na escola do Primavera, meu filho Valter trabalha no posto de gasolina da rodovia, mas todo dia tira o leite das vacas. O Vagner trabalha na prefeitura de Andradina e também me ajuda."

O Sítio São Lucas, de sua propriedade, é uma ilha no meio do canavial. O seu vizinho da direita, conhecido como Nelson Leiteiro, não vendeu, mas arrendou a terra para uma usina e mudou para a cidade. O da esquerda também já tem cana. Antes, não era assim.

Para Valdeci, o caso da Primavera foi agravado pela falta de assistência do Incra. Sem apoio para financiar a produção, vários agricultores recorreram aos bancos e, no fim, tiveram de entregar a eles parte de suas terras. Ele mesmo teve de vender quatro alqueires para pagar uma dívida bancária.

O assentado Manoel Joaquim de Oliveira, outro pioneiro, hoje com 76 anos, jogou a toalha. Ele conta que em 1995 teve de vender 5 alqueires, dos 19,5 que havia recebido do governo. "Plantei milho, perdi tudo e o seguro não cobriu."

Em 2011, após a morte da mulher, vendeu o resto. Obteve R$ 410 mil, que foram divididos entre seus quatro filhos.

Na avaliação dele, os assentados de hoje têm melhores condições de sobreviver na terra. "Não recebemos nada do governo e ainda pagamos pela terra em prestações. Meu filho é assentado novo, teve a terra de graça e recebeu verba para fazer a casa e comprar gado sem ter que pagar."

Parceria. A professora aposentada Divanita dos Santos, de 58 anos, diz que criou quatro filhos produzindo leite, milho e feijão. Mas também acabou vencida pela cana. "Há sete anos, perdemos uma lavoura de soja e não conseguimos pagar o financiamento. Com o nome bloqueado, ficamos três anos com a terra parada."

Ela acertou uma parceria com uma usina e plantou cana em 25 hectares do lote. Nos cinco restantes, mantém gado de leite. Com o dinheiro da cana, a dívida está sendo paga. "Sou obrigada a reconhecer que a cana foi a nossa salvação."

Divanita lamenta o esvaziamento do assentamento. Seus quatro filhos já saíram. O último virou caminhoneiro e foi para a estrada. "Quase todos aqui trabalham fora porque não dá para sobreviver só plantando. A família hoje não se satisfaz só com o que a terra produz", continua. "Só não fecharam a escola porque a Justiça não deixou."

A escola chegou a ter 600 alunos. Hoje tem 102.

O aposentado João Francisco da Silva, de 67 anos, conta por que arrendou o lote: "Meu filho perdeu as duas pernas num acidente com uma roçadeira, minha mulher teve um derrame e meu coração não está bom. Aí veio a usina e fez uma proposta: dez alqueires de cana dão R$ 1.600 por mês. Todo dia 10 o dinheiro cai na conta, não tenho do que reclamar".

Ele, o filho e a esposa também recebem aposentadorias. A filha, professora, mudou-se para a cidade.

As pessoas que chegam ao assentamento não vão para plantar. É o caso de Maria Ribeiro de Souza, 68 anos, que comprou parte de um lote e trouxe os filhos de Sorocaba. Eles vivem em 1,5 alqueire, com três casas. Todos trabalham fora.

O assentado Laurindo Silva preferiu não arrendar para a cana, mas loteou a área que recebeu do governo em parcelas de 1,5 alqueire. Parte delas foi vendida a pessoas de fora e transformada em chácaras de recreio. Uma delas já tem piscina.

Viabilidade. Na avaliação do presidente do Incra, Carlos Guedes, os assentamentos não estão imunes à lógica do mercado. O centro da preocupação do governo, disse ele ao Estado, tem sido garantir a viabilidade econômica das famílias beneficiadas pela reforma e a sobrevivência dos assentamentos, considerados de grande importância para a produção de alimentos no País.

Para garantir a viabilidade econômica, segundo Guedes, o governo tem investido sobretudo na melhoria da assistência técnica e dos programas de comercialização da produção.

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