Servidor sugere fraude e acusa aliados de prefeito de chefiar Delta em Palmas

Um funcionário municipal de Palmas afirmou em depoimento à Polícia Civil do Tocantins que dois ex-secretários do prefeito Raul Filho (PT) são os reais responsáveis pelos negócios locais da Delta. A testemunha apontou ainda indícios de fraude nos serviços prestados pela empreiteira na cidade.

FERNANDO GALLO, ENVIADO ESPECIAL / PALMAS, LAILTON COSTA, ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h06

O prefeito petista está convocado pela CPI do Cachoeira para depor na terça-feira em Brasília a fim de explicar suas relações com a Delta e com o esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Num vídeo gravado em 2004 e revelado na semana passada pelo Fantástico, da TV Globo, o então candidato Raul Filho promete benefícios na administração a Cachoeira, em troca de ajuda em sua campanha. Dois anos depois, com o petista já eleito, a Delta obteve contratos milionários de limpeza urbana - eles ainda estão em vigor e vão até 2014. A empreiteira é apontada pela Polícia Federal como integrante de um esquema corruptor do qual Cachoeira também faz parte.

O engenheiro Luiz Marques, que era responsável pela fiscalização dos serviços da Delta na capital entre 2007 e 2011, afirmou no depoimento à polícia que Pedro Duailibe, cunhado de Raul Filho e ex-secretário de Governo, e Jair Correa Júnior, ex-secretário de Infraestrutura, comandam a empresa na cidade.

Ainda em seu depoimento, prestado em agosto do ano passado, Marques disse que Raul Filho tem ciência do que ocorre entre a prefeitura e a empreiteira.

A Polícia Civil abriu inquérito a fim de reforçar as investigações sobre suspeitas de fraudes nos serviços da Delta. A apuração ainda está em andamento e vem servindo como complemento a uma ação civil de 2010 movida pelo Ministério Público contra a empreiteira e servidores da Prefeitura de Palmas. Um dos alvos da ação, Marques assumiu o papel de acusador no inquérito policial.

Pedro Duailibe foi exonerado do cargo em abril, após assumir que era para ele um depósito de R$ 120 mil feito pelo tesoureiro da Delta no Centro-Oeste, Rodrigo Dall Agnol, na conta de uma assessora fantasma de sua irmã, Solange Duailibe. Solange é deputada estadual e primeira-dama de Palmas. Jair Júnior, que também é alvo da ação civil, deixou a prefeitura no fim de 2010.

Planilhas. O engenheiro disse à polícia que o trâmite normal de fiscalização dos serviços da Delta não era seguido. Segundo ele, as planilhas de medição do serviço de coleta de lixo já lhe chegavam prontas, com a assinatura do secretário, que normalmente é o último a assinar. E acrescentou que, nos contratos feitos com outras empresas, as anotações das medições eram feitas por um subalterno seu, depois seguiam para que ele conferisse, produzisse e assinasse as planilhas. Só então elas seguiam para Jair Júnior assinar.

Luiz Marques declarou à polícia que algumas vezes um funcionário da prefeitura de nome Gleidson o procurou para trocar as planilhas mesmo depois de feitos os pagamentos à Delta com base nas planilhas anteriores. E disse que chegou a ser procurado à noite, em casa, para que assinasse documentos e que tudo o que dizia respeito a pagamentos à Delta era tido como prioridade.

O engenheiro declarou que um dos contratos de emergência entre a prefeitura e a empresa - foram quatro dispensas de licitação - chegou pronto à secretaria. Ele sustentou ainda que Jair Júnior usava um carro da Delta quando era secretário e tinha um genro que trabalhava na empresa, em Rio Verde, cidade de Goiás.

Um outro servidor do mesmo departamento, Raimundo Gonçalo, responsável pelas medições do serviço da Delta em campo, admitiu à polícia que a Delta pagou bilhetes aéreos para que seu filho Ronaílson fosse ao Rio participar de uma seletiva de um time de futebol. Ele negou, porém, ter havido "troca de favores".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.