Serra negocia com Alckmin entrada em prévia para legitimar candidatura

O ex-governador José Serra reuniu-se anteontem à noite com o governador Geraldo Alckmin para discutir sua entrada como candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo. Os dois analisam agora uma eventual participação de Serra na prévia da sigla, marcada para o dia 4 de março, numa ação que legitimaria a candidatura. Ao mesmo tempo, o partido analisa se a disputa interna pode ser postergada.

JULIA DUAILIBI, SONIA RACY, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2012 | 03h07

A informação foi antecipada ontem no portal estadão.com.br. A ideia é tentar avançar num consenso em torno do nome de Serra - ou, pelo menos, uma maioria segura. Integrantes da executiva municipal foram acionados para encontrar uma saída jurídica para a entrada de Serra na prévia, cujas inscrições foram encerradas na semana passada.

Em reunião no Palácio dos Bandeirantes anteontem, da qual participaram também o secretário da Casa Civil, Sidney Beraldo, e o senador Aloysio Nunes Ferreira, a entrada de Serra na prévia foi apontada como a forma menos desgastante de colocar o ex-governador na disputa eleitoral, num momento em que o partido já avançou no processo de escolha interna.

Apoiada por parte da direção estadual do PSDB, a prévia acabou avançando internamente, de modo que o próprio governador evita arcar com o ônus de dar uma canetada para desmarcá-la.

A avaliação da cúpula é que a indicação de Serra pela direção do partido, atropelando dois dos quatro pré-candidatos - o secretário José Aníbal (Energia) e o deputado Ricardo Tripoli dizem que não vão desistir -, seria mal digerida não só por grupos do PSDB como por eleitores.

A saída colocada na mesa de discussão passou a ser então a entrada de Serra na disputa interna, num movimento que contaria com o apoio dos outros dois pré-candidatos: os secretários Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente) tendem a abrir mão da corrida.

Os líderes tucanos avaliam, inclusive, que a movimentação pode acuar Aníbal e Tripoli e levá-los a desistir do processo de escolha interna, tornando Serra o candidato por aclamação - a hipótese hoje é pouco provável, mas não está descartada.

A disposição de Serra disputar a prévia, algo visto com resistência por seus apoiadores, também teria outro propósito: mostraria que o ex-governador é a favor da democracia partidária e que se submete à escolha de militantes.

Dúvida. No encontro com Alckmin, Serra fez questão de dizer, no entanto, que ainda não está decidido a ser candidato. A ressalva foi interpretada no Bandeirantes como trunfo para poder negociar com o governador. Além da questão da prévia, Serra quer a garantia de que terá um amplo arco de alianças a seu favor, o que daria a ele tempo de TV no horário eleitoral. Quer Alckmin envolvido no processo.

Vice. Apesar da disposição para composição com outras legendas, os tucanos trabalham agora com um cenário de "chapa puro-sangue". Matarazzo e Bruno, que apoiariam Serra na prévia, estão cotados para a vice.

A mudança da data da prévia seria possível em virtude de uma brecha jurídica presente em resolução do diretório estadual do PSDB, que disciplina o processo. O documento aponta que a prévia deve ser realizada até 31 de março, o que daria maior tempo para costurar a operação a favor do ex-governador.

"A mudança da data é possível, mas deve passar pela decisão da executiva municipal ou estadual do PSDB", disse um tucano.

Aníbal e Tripoli rejeitam postergar a prévia. "Marcar a prévia no dia 4 de março foi resultado de um processo muito amadurecido, com sugestões de Alckmin, em novembro", disse o secretário de Energia. "Não vou entrar em discussão jurídica, estatutária. Entro na discussão política."

"Não vejo nenhuma chance de adiar a prévia nesta altura do campeonato. Você já tem os tablets alugados, militância convocada, o último debate será na segunda-feira", afirmou Tripoli. "Ele (Serra) podia ter dito quando teve oportunidade. Ele que leve a proposta para o diretório municipal. Não tenho nada contra a participação", completou.

Diante da resistência de Serra a entrar na corrida, a ideia inicial do grupo serrista era lançar candidato o vice-governador Guilherme Afif Domingos, aliado do prefeito Gilberto Kassab (PSD), em troca de aliança pela reeleição de Alckmin em 2014. A ação foi rejeitada pelo governador, que estimulou a prévia como processo de escolha, num cenário sem Serra. Em janeiro, o ex-governador reuniu-se com aliados e avisou que não concorreria.

Kassab deflagrou, então, um processo de aproximação com o PT, o que levou o Palácio dos Bandeirantes a fazer uma operação de guerra para pressionar Serra a reverter a decisão de não ser candidato. / COLABORARAM FERNANDO GALLO e GUSTAVO URIBE

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