Senhora da razão

Se os políticos estão desconfortáveis com os meios e, principalmente, com os modos da presidente Dilma Rousseff, bom saberem que a recíproca é verdadeira: ela tampouco está à vontade com eles.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2013 | 02h03

Acha que é preciso resgatar alguns espaços institucionais, restringir a área de atuação dos partidos na máquina pública e proteger o Estado da ocupação referida nos interesses desse ou daquele aliado.

O custo da insatisfação, segundo ministros de sua convivência diária, está devidamente contabilizado. E o antídoto também: a popularidade da presidente, a expectativa de renovação do poder gerada pelo favoritismo eleitoral, o manejo das emendas parlamentares, a distribuição de espaços ainda disponíveis e o investimento no diálogo.

Em resumo, na avaliação do governo o diabo não é tão feito quanto faz supor a turbulência posta de forma explícita da votação da MP dos Portos. Primeiro, porque o episódio é visto como uma excepcionalidade.

Devido ao conteúdo da medida, abriram-se janelas de oportunidade para todo tipo de "negócio", tal a gama de interesses em conflito e o afã de atender às demandas de financiadores e potenciais doadores de campanhas.

Em segundo lugar, na visão do Planalto o clima de tensão não é novidade, faz parte. Mesmo sob a batuta de Lula, argumenta-se, houve momentos de conflito e derrotas importantes, sendo a mais contundente a perda da CPMF.

Em terceiro, e no mais eloquente argumento apresentado pelo governo, é que há diferenças entre as concepções de Dilma Rousseff e as de seu antecessor no tocante ao conceito de governo de coalizão.

Lula compunha e cedia como se não houvesse amanhã. Dilma resolveu restringir propositadamente os espaços ocupados por aliados, inclusive os reservados ao PT. "Daí a insatisfação", constata integrante da equipe palaciana sem dar sinais de que exista a menor intenção de alterar procedimentos.

Um exemplo citado é o da Petrobrás. "Houve mudanças na diretoria a partir da necessidade de se retomar a gestão mais profissionalizada, menos politizada. O Gabrieli não deixou a presidência por acaso".

No que poderia ser interpretado como crítica aos meios e modos de o ex-presidente Lula tratar seus aliados - embora isso não seja dito dessa maneira explícita -, dá margem ao seguinte raciocínio: "Na transição entre um governo e outro houve mudança de conceito sobre o funcionamento da coalizão. A presidente Dilma decidiu fechar algumas torneiras e, com isso, as pessoas ficaram nervosas".

Depreende-se, até que as circunstâncias imponham alguma revisão de rumo, que continuarão assim. Pelo simples fato de que Dilma Rousseff acha que deve ser assim.

Bolsa de valor. Quanto mais episódios de desordem e insegurança públicas ocorrem em São Paulo, reforço ganha a ideia de fazer do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, candidato ao governo do Estado pelo PT.

Nas pesquisas quantitativas, Cardozo nem chega perto dos índices de nomes como Marta Suplicy. Nas qualitativas, em compensação, o ministro aparece bem posicionado no eleitorado do PSDB que se mostra cansado do partido.

Crocodilo. Sinceridade? Alguns tucanos defendem a dupla função de Guilherme Afif Domingos, a maioria estrategicamente cala, mas não vão chorar lágrimas de esguicho se o ministro em governo do PT e vice-governador em administração do PSDB vier a perder o mandato, conforme recomenda o Ministério Público de São Paulo.

Afif, em verdade, entra aí como Pilatos no credo. O Judas mesmo é Gilberto Kassab, cuja migração da oposição para o campo governista a bordo do PSD continua sendo vista como crime sem perdão.

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