Senador aliado de Cachoeira é poupado

Colegas ignoram laços de Ataídes Oliveira com o contraventor; na época da CPI que investigou o esquema ele era suplente

FABIO FABRINI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2013 | 02h09

O senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO) foi beneficiário de R$ 6,3 milhões repassados por empresas ligadas a Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, segundo apuração da comissão parlamentar de inquérito que investigou as relações do contraventor com políticos. Ataídes Oliveira, contudo, escapou de questionamentos no Conselho de Ética do Senado e, até aqui, passou ao largo das investigações do Ministério Público Federal.

Um detalhado material da CPI e da Polícia Federal demonstra a estreita relação do senador com Cachoeira. As informações foram deixadas em segundo plano porque, na época, ele não exercia mandato e os partidos foram atrás de figuras mais influentes - entre elas o senador cassado Demóstenes Torres e os governadores Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, e Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal.

Suplente do senador João Ribeiro (PR-TO), Ataídes o substitui desde fevereiro quando ele saiu para tratamento de saúde. Apesar das conclusões da CPI, não foi alvo de representações no colegiado. A comissão foi encerrada em dezembro de 2012 com a rejeição do relatório final elaborado pelo deputado petista Odair Cunha (MG), escalado para conduzir a investigação.

Membros da CPI ouvidos pelo Estado garantem que o material recebido da PF, os depoimentos e as revelações da comissão foram enviados ao Ministério Público. Mas, de acordo com o MPF em Goiás, um pedido para que a Procuradoria-Geral da República apure o envolvimento de Ataídes Oliveira com o esquema de Cachoeira aguarda a cópia das escutas telefônicas autorizadas pela Justiça.

Com a posse no Senado, e uma prestação de serviços a Cachoeira tão documentada quanto a de Demóstenes Torres, à qual o Estado teve acesso, Ataídes não é alvo do mesmo rigor aplicado ao goiano. PT e PSOL prometem discutir o tema, mas são reticentes quanto a uma eventual representação no Conselho de Ética - temem que isso possa recriar uma agenda negativa no Parlamento. Além disso, João Ribeiro, licenciado por 120 dias, pode requerer a cadeira de senador a qualquer momento.

Avião. De acordo com o inquérito da Operação Monte Carlo, a pedido de Cachoeira o tucano emprestava seu avião particular a aliados do contraventor, como o ex-diretor da Delta Construções, Cláudio Abreu. Ele via Cachoeira com frequência e lhe pedia favores. Segundo as investigações, recorreu a ele para publicar matérias de seu interesse no jornal O Estado de Goiás, que, segundo a PF, seria ligado a Cachoeira. O grau de intimidade entre Ataídes e o contraventor fica claro em diversas escutas - conversam até sobre relacionamentos amorosos de políticos conhecidos.

Conforme o relatório final da comissão, não aprovado por falta de acordo entre os parlamentares, Ataídes Oliveira recebeu dinheiro de várias empresas de fachada, criadas para dar aparência legal a movimentações financeiras do esquema. São depósitos abaixo e acima de R$ 100 mil.

A maior quantia, R$ 5,8 milhões, foi transferida de uma só vez à Araguaia Construtora e Incorporadora - uma das empresas de Ataídes Oliveira - pela MCLG, de propriedade do empresário Marcelo Limírio, apontado como sócio de Cachoeira. Outros R$ 500 mil partiram de contas do contador de Cachoeira, Geovani Pereira da Silva.

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