Sem emendas e sem cargos, deputados do PSD ameaçam sair

Composta por políticos da oposição que queriam desfrutar das benesses de ser governo, sigla de Kassab poderá encolher

EDUARDO BRESCIANI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2013 | 02h06

Fruto de insatisfações de parlamentares com seus partidos, o PSD corre o risco de ser vítima do mesmo processo que viabilizou sua criação. Sem emendas liberadas e sem espaço no governo, deputados da legenda questionam promessas feitas há dois anos, na ocasião da fundação, por líderes da legenda presidida pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab.

Integrantes do próprio PSD estimam que 10 a 20 dos 51 deputados fundadores deixem o partido até o fim de setembro, quando encerra o prazo de filiação para as próximas eleições.

O líder na Câmara, Eduardo Sciarra (PR), admite dissidências, mas acredita que outros deputados irão para o PSD.

Dados do Siafi sobre a liberação de emendas parlamentares confirmam, em parte, o discurso repetido por vários parlamentares de que o PSD vota com o governo, mas recebe tratamento de oposição.

No ano passado, depois de o PSD se declarar "independente", parlamentares do partido conseguiram obter promessa de pagamento (empenhos) de 32% de suas emendas, menos que os petistas (44,7%) e os peemedebistas (41,4%). Os valores do partido de Kassab se aproximaram dos obtidos por deputados do DEM (27,5%), de onde muitos saíram rumo ao PSD. Em 2013, o governo ainda inicia o processo de liberação de emendas. Nenhum partido obteve empenho superior a 3%.

As emendas estão por trás das principais demandas no Congresso porque permitem capitalização política dos parlamentares nas bases eleitorais. As reclamações são comuns a todos os partidos, mas no PSD a frustração é maior porque boa parte dos deputados veio da oposição justamente acreditando que teria obras a mostrar em suas bases para consolidar projetos pessoais de reeleição.

"Todo mundo que mudou para o PSD tinha uma expectativa de mudança de tratamento em relação a cargos e emendas que não foi alcançada", resume um dos descontentes.

A posição de independência em relação ao governo é vista por muitos como um dos motivos da insatisfação que atinge boa parte da bancada.

"Não adianta fazer discurso. No seu Estado você precisa dizer se é a favor ou contra o governo", diz outro insatisfeito. Esses deputados gostariam de ver o PSD com cargos na Esplanada. A bancada jamais aceitou ver o espaço do quarto maior partido na Câmara ser relegado à enxuta Secretaria da Micro e Pequena Empresa, comandada por Guilheme Afif Domingos.

Reeleição. Kassab comanda um processo para declarar oficialmente nos próximos meses um apoio à reeleição de Dilma, de olho na formação de um novo governo pós-2014. A visão de longo prazo, porém, não seduz. Sem o apoio da máquina governista, parlamentares argumentam que podem perder seus mandatos. Outros questionam que "vender o passe" tão cedo para o PT atrapalha as negociações nos Estados, ainda que Kassab tenha prometido liberar as coligações regionais.

Os deputados próximos da porta de saída evitam antecipar os movimentos. O prazo para filiação partidária se encerra em setembro. Muitos farão a mudança na véspera. Entre os insatisfeitos estão Ademir Camilo (MG), Sérgio Brito (BA) e Liliam Sá (RJ). O primeiro diz que só fica no PSD se for candidato ao Senado. O segundo diz que 60% da bancada está insatisfeita, mas alega ter boa relação com a direção local, comandada pelo vice-governador Otto Alencar. Liliam Sá não foi encontrada. Sua volta ao PR é dada como certa por dirigentes.

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