Sem apoio, Lupi se antecipa e pede demissão; PT mira pasta do Trabalho

Crise na Esplanada. A presidente Dilma Rousseff já havia selado o destino do ministro, que perdeu apoio do próprio PDT e não conseguiu explicar as denúncias de corrupção; atual secretário executivo, Paulo Roberto dos Santos Pinto, assumirá interinamente

VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2011 | 03h02

Vinte e sete dias após dizer que só sairia da Esplanada "abatido à bala", o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, antecipou-se ontem à demissão iminente - já decidida pela presidente Dilma Rousseff - e entregou o cargo. Trata-se do sétimo ministro que cai em quase um ano de governo.

Enredado em uma teia de denúncias, Lupi perdeu o apoio do PDT, entrou em rota de colisão com o PT - que está de olho na vaga - e não conseguiu explicar à Comissão de Ética da Presidência acusações de cobrança de propina na pasta.

Na tarde de ontem, Lupi se encontrou com Dilma, no Palácio da Alvorada. A presidente havia chegado na véspera de uma viagem a Caracas, na Venezuela, e o ministro já recebera recados de que sua demissão era "favas contadas". Para se antecipar ao gesto, acertou com Dilma a saída antes mesmo da reunião da Executiva Nacional do PDT, marcada para hoje. Os termos da carta foram combinados com auxiliares da presidente.

"Tendo em vista a perseguição política e pessoal da mídia, que venho sofrendo há dois meses sem direito de defesa e sem provas; levando em conta a divulgação do parecer da Comissão de Ética (...) - que também me condenou sumariamente (...), sem me dar direito de defesa - decidi pedir demissão do cargo que ocupo, em caráter irrevogável", escreveu Lupi. "Faço isto para que o ódio das forças mais reacionárias e conservadoras deste país contra o trabalhismo não contagie outros setores do governo."

Foi o passivo de escândalos que selou o destino de Lupi e nem mesmo as juras de amor a Dilma adiantaram. Depois de desafiar a Comissão de Ética, que na quarta-feira recomendou a dispensa, ganhar tempo e anunciar que faria uma "análise objetiva" do caso, Dilma chegou à conclusão de que não seria possível segurar o auxiliar até a reforma ministerial, prevista para ocorrer no fim de janeiro de 2012.

Em nota, a presidente agradeceu "o empenho e a dedicação" de Lupi e confirmou que o secretário executivo do ministério, Paulo Roberto dos Santos Pinto, assumirá interinamente o comando da pasta até o início do ano que vem. Ele é filiado ao PDT, mas não tem a simpatia do partido. Dilma, porém, não quer que o PDT indique um novo ministro agora. Motivo: ela pretende fazer um rodízio na partilha dos cargos e tirar o Trabalho do controle pedetista, na reforma da equipe.

Lupi é o sexto ministro que cai sob denúncia de corrupção. Pesaram contra ele, ainda, acusações de repasse de dinheiro do ministério para abastecer o caixa do PDT e patrocinar ONGs de fachada. Até agora, dos nomes abatidos na Esplanada, apenas Nelson Jobim (Defesa) não integrou a lista da "faxina". Foi dispensado por ter dado declarações consideradas "inconvenientes" sobre o governo.

A cúpula do PDT vai se reunir hoje à tarde, em Brasília, para discutir o day after da crise e há quem defenda a saída da base aliada. "Para mim, o PDT não deve ter nenhum cargo no governo Dilma", afirmou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). "Nós vamos continuar no governo, mesmo não sendo nesse ministério", rebateu o deputado André Figueiredo (CE), presidente interino do PDT.

Lupi conversou ontem com amigos, por telefone, e avisou que desocuparia a cadeira, porque sua família não estaria aguentando a pressão. "A cúpula do governo mandou o Lupi resistir e pôs o PT para bater nele. Foi assim com o PC do B também", disse o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, numa referência à crise que derrubou o ministro do Esporte, Orlando Silva.

O Ministério do Trabalho foi um feudo petista no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por lá passaram Jaques Wagner (hoje governador da Bahia), Ricardo Berzoini (atualmente deputado federal) e Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo. Agora, petistas agem para retomar o domínio da pasta, em 2012.

Fusão. Sem ceder às pressões, Dilma analisa a possibilidade de resgatar um desenho antigo da Esplanada e fundir Trabalho com Previdência. Nesse cenário, o PDT poderia ficar com a Agricultura, hoje comandada pelo PMDB. O nome mais cotado para o posto, nesse caso, seria o do ex-senador Osmar Dias (PDT-PR), que também não tem chancela oficial do partido.

O presidente do PT, Rui Falcão, negou que a legenda tenha agido para desbancar Lupi. "A minha preocupação sempre foi com o aparelhamento e com a chamada política de porteira fechada, de ocupar determinados postos com pessoas que só representam uma central sindical", resumiu Falcão.

A briga entre a CUT, braço do PT, e a Força Sindical, ligada ao PDT, foi um importante ingrediente da crise política. Na guerra pelo poder, integrantes da Força contavam que Dilma desidratou o Trabalho, levando as principais negociações para a Secretaria-Geral da Presidência.

Com a saída de Lupi, o PDT espera reverter a pecha de corrupção que paira sobre a sigla. "Temos de lutar para tirar essa imagem", disse o secretário-geral do PDT, Manoel Dias. / COLABOROU EUGÊNIA LOPES

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