Fernanda Luz/Divulgação
Fernanda Luz/Divulgação

Sem apoio de líderes evangélicos, França e Tatto buscam apoio na base das igrejas

Candidatos do PSB e do PT à Prefeitura de São Paulo tentam vencer barreira imposta por representantes nacionais de denominações religiosas

Ricardo Galhardo e Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 21h50

Ignorados por líderes nacionais de igrejas evangélicas, os candidatos à Prefeitura de São Paulo Marcio França (PSB) e Jilmar Tatto (PT) adotaram a estratégia de dialogar diretamente com as bases em busca de uma fatia do eleitorado religioso da Capital. Segundo a pesquisa Ibope mais recente, França tem 9% das intenções de voto entre os evangélicos, enquanto Tatto tem 6%. O segmento escolhe, majoritariamente, Celso Russomanno (Republicanos), com 38%, e Bruno Covas (PSDB), com 17%.

Nesta segunda-feira, 19, França recebeu o apoio de 500 pastores de igrejas como Assembleia de Deus, Universal, Presbiteriana e Batista em ato pluripartidário realizado no Parque São Jorge, no Tatuapé, zona leste. Tatto assinou uma carta de compromisso com oe evangélicos em um ato na quadra do Sindicato dos Bancários. Os evangélicos representam cerca de 30% do eleitorado brasileiro. 

"Cada um deles têm duas, três, cinco, oito, dez igrejas… Não são os grandes. Os principais líderes nacionais e estaduais já têm seus candidatos a vereadores e têm vínculo com o governo do Bruno (Covas, atual prefeito)", afirmou, sobre sua aproximação com os líderes religiosos que lidam com o dia a dia de suas comunidades.

"No Brasil, 50% (dos evangélicos) são da Assembleia de Deus, que tem duas denominações gigantes aqui: Braz e Madureira. Os principais líderes me ajudaram bastante nas eleições anteriores, mas eles têm vereadores. Uma delas, a Marta (Costa, do PSD), é vice na chapa do (Andrea) Matarazzo", disse França, sobre os compromissos políticos dos grandes líderes da denominação. Marta é deputada estadual e filha do pastor José Wellington Bezerra da Costa, que foi presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil até 2017.

França afirma que a sua aproximação com essas lideranças religiosas da base ocorreu em função da agenda de recuperação de dependentes químicos. Ele relata um caso de família que ocorreu há 20 anos, em São Vicente. "Os pais da minha mulher faleceram, os irmãos dela foram morar conosco e um deles, que era adolescente, era super problemático. Ele acabou sendo internado numa casa de recuperação com vínculo a uma igreja evangélica e voltou nove meses depois, curado", relatou, referindo-se ao atual prefeito da cidade, Pedro Gouvêa (MDB).

"A recuperação fica mais fácil quando há, além do apoio médico e psicológico, o apoio religioso", argumentou. Ele afirma ser favorável a formação de convênios do poder público com essas instituições religiosas, semelhante ao que ocorre hoje, mas com mais apoio para que eles consigam lidar melhor com exigências burocráticas e prestação de contas.

Tatto assinou uma carta de compromisso articulada pelo Movimento de Evangélicos e Evangélicas em apoio à sua candidatura. O documento começa com um trecho da Bíblia que diz "pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7:20). A ideia é mostrar que o legado do PT na cidade atende a diversos pontos da pauta evangélica. 

Segundo a carta, realizações como o Bilhete Único, corredores de ônibus, renovação das frotas e o Programa Almoço e Janta e promessas de campanha como a tarifa zero, economia solidária e renda básica atendem aos valores cristãos como a valorização da família.

"Buscamos estabelecer um diálogo através de programas que têm a preocupação com a família como centro", disse o coordenador da campanha de Tatto, Laércio Ribeiro, presidente municipal do PT.

Segundo o ex-ministro Gilberto Carvalho, encarregado há décadas de fazer a ponte entre o PT e as igrejas, depois do apoio massivo dos evangélicos à  eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, o PT busca dialogar diretamente com a base das igrejas. 

"O nosso foco é trabalhar com os fiéis e com uma parte dos pastores que têm posições mais progressistas e estão aumentando. Com os chefes das grandes denominações nós nem procuramos conversar. É uma perspectiva totalmente nova", disse Carvalho.

Estadão mostrou que evangélicos contrários ao governo Bolsonaro têm criado plataformas para se candidatar nas eleições deste ano por vários partidos de esquerda e centro-esquerda e que a base dos fiéis é menos conservadora do que aparentam os discursos das lideranças nacionais.

Apesar do novo enfoque, o PT admite que não tem feito o dever de casa na relação com esta fatia importante do eleitorado. "O trabalho junto aos evangélicos no dia a dia não é como deveria ser mas em certa medida procuramos ter este contato cotidiano, sim", disse Ribeiro.

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