Werther Santana
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‘Se perder, deixo a vida pública', diz Haddad

Petista fez a confidência ao ser questionado se deixaria partido em caso de derrota na eleição

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2016 | 21h00

Poucos dias antes do início formal da campanha pela reeleição um interlocutor perguntou ao prefeito Fernando Haddad se ele cogitava deixar o PT caso perdesse a disputa. A resposta foi desconcertante: “Se perder a eleição não vou deixar o PT, vou deixar a vida pública”.

Para o candidato do PT o resultado das urnas neste domingo pode significar o céu ou o inferno. Se conseguir chegar ao segundo turno, depois de uma campanha acidentada e repleta de obstáculos, Haddad representará a salvação do PT na eleição mais difícil da história de um partido que depois de 13 anos à frente do governo federal vive as sequelas do impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff e vê seus principais líderes mergulhados em denúncias de corrupção.

Mais do que isso, em caso de sucesso, Haddad passa a simbolizar uma das principais saídas para a fragilizada esquerda brasileira em meio ao avanço de adversários mais identificados com o centro ou a direita. Para alguns, um bom desempenho nas urnas hoje coloca Haddad em condições de ser o “plano B” desse campo caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, réu na Lava Jato, seja impedido de concorrer à Presidência em 2018.

Haddad poderá ser o primeiro prefeito de São Paulo que se candidatou à reeleição a não chegar ao segundo turno e o primeiro petista a cair na primeira etapa eleitoral desde 1992. Como ele mesmo diz, seu destino voltará a ser a cátedra universitária – a não ser que os movimentos da política provoquem uma nova reviravolta.

Além disso, um revés de Haddad significaria uma derrota pessoal de Lula, que impôs o nome de seu ministro da Educação ao altivo PT de São Paulo. Essa imposição deixou cicatrizes que ficaram em segundo plano depois da vitória sobre o tucano José Serra, em 2012. “Uspiano, classe média e são-paulino”, segundo Lula, Haddad difere do padrão petista.

Ao longo do mandato essas contradições ganharam força. Petistas reclamam da falta de diálogo e aceso ao prefeito que cultivou a imagem de teimoso – para o bem ou para o mal, a depender do interlocutor. 

Tucanos. Nesses quatro anos, Haddad “teimou” ao tentar manter uma boa relação com tucanos como o governador Geraldo Alckmin e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao resistir em afrouxar a fiscalização viária que alimenta a chamada “indústria da multa”, a maneirar na implementação das polêmicas ciclovias, a desistir da redução do limite de velocidade, a deixar o gabinete e andar mais pela periferia e a investir mais em propaganda.

Petistas atribuem à teimosia do prefeito os altos índices de desaprovação da administração que o fizeram chegar fragilizado à campanha.

Segundo o Ibope, ele entrou 2016 com apenas 13% de avaliação boa ou ótima e 56% de ruim ou péssimo – o que se traduziu em rejeição. Também segundo o Ibope, Haddad é rejeitado por 48% do eleitorado.

“Uma das falhas foi a falta de uma política mais agressiva durante o mandato. Outra foi o erro na escolha dos subprefeitos que são quem faz a disputa lá na ponta”, disse o deputado Vicente Cândido (PT), coordenador do programa de governo de Haddad.

Um dos aspectos que o prefeito ajudou a cultivar foi o de político “diferente”, o “homem novo”, que não faz cálculos políticos ao tomar decisões.

Para alguns petistas isso não passa de mito. “Ele faz cálculo político, e faz muito bem. Em junho de 2013, a insatisfação popular se voltou contra a gestão municipal. Ali Haddad fez um cálculo. Quando o navio afundou, ele pegou a boia e foi para a margem esquerda”, disse o secretário municipal de Saúde, Alexandre Padilha.

Em vez de ouvir os conselhos petistas, Haddad se manteve fiel à estratégia original de montar uma ampla aliança eleitoral que garantisse largo tempo no horário eleitoral da TV, onde explicaria suas realizações.

A estratégia começou a ruir conforme avançava o impeachment de Dilma. O PMDB se afastou, reduzindo o tempo de TV.

A relação conflituosa com o PT veio à tona logo no início da campanha quando, em entrevista ao Estado, Haddad disse que “golpe” é uma palavra “um pouco dura” para definir o impeachment e enfureceu o partido.

Dez dias atrás, poucos petistas arriscariam dizer que Haddad chegaria hoje em condições de ir para o segundo turno. A situação começou a mudar depois que a campanha petista “nacionalizou” o debate, carimbando adversários com medidas impopulares do governo Temer, como a reforma trabalhista, provocando uma mudança nas intenções de voto.

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