Ricardo Stuckert
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Se eleito, Lula deve optar por perfil político na pasta da Economia para facilitar ‘revogaço’

Pré-campanha petista quer nome com bom trânsito no Congresso para eliminar teto de gastos e revisar reforma trabalhista

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2022 | 05h00
Atualizado 09 de fevereiro de 2022 | 11h04

BRASÍLIA - A cúpula do PT procura um nome com perfil político para ocupar o Ministério da Economia em um eventual governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ideia é buscar alguém que tenha bom trânsito no Congresso, até mesmo para facilitar as mudanças que Lula pretende fazer caso seja eleito, como eliminar o teto de gastos públicos e revisar a reforma trabalhista aprovada no governo de Michel Temer (MDB).

O desmembramento do Ministério da Economia também faz parte de planos em estudo pela coordenação da pré-campanha petista. Uma das propostas prevê recriar pastas que hoje estão sob o guarda-chuva do superministério comandado por Paulo Guedes, como Planejamento, Indústria e Comércio Exterior.

Quando ocupou o Palácio do Planalto, Lula tinha ingerência sobre a política econômica e ampliou o número de cadeiras na Esplanada para acomodar os aliados. Se voltar ao poder, o ex-presidente pretende ser responsável pela condução da economia. “Eu não terei nenhum porta voz”, diz.

Em seu primeiro mandato (2003-2006), Lula anunciou 34 ministros e secretários especiais, incluindo Ciro Gomes na Integração Nacional. Ciro é hoje pré-candidato à Presidência pelo PDT e ferrenho adversário. No segundo mandato (2007-2010), o número de pastas chegou a 36.

O presidente Jair Bolsonaro montou um governo com 22 titulares, mas acabou cedendo cargos ao Centrão em estatais e relançou o Ministério do Trabalho e da Previdência, que também estava sob a alçada de Guedes. Promoveu uma dança das cadeiras em troca de apoio. Hoje, a equipe de Bolsonaro tem 23 ministros.

Empresários

Aliado de Lula, o empresário Walfrido dos Mares Guia vem sendo citado por petistas e por agentes do mercado financeiro como possível nome para a equipe econômica, caso o ex-presidente retorne ao Palácio do Planalto. Ex-ministro do Turismo e das Relações Institucionais, Walfrido também foi vice-governador de Minas (1995 a 1999), deputado federal e é considerado hábil articulador político. Fundador do grupo Pitágoras, o empresário tem cedido um avião de sua propriedade para Lula viajar na pré-campanha e doou R$ 90 mil para o PT no ano passado.

Favorito nas pesquisas de intenção de voto, Lula já disse ter recebido “mais de 20” indicações para a cadeira de Guedes, mas desautorizou dirigentes do PT a falar sobre o assunto, embora um grupo do partido continue produzindo listas de “ministeriáveis”. Walfrido também aparece como o empresário que poderia ser ministro da Indústria e Comércio Exterior em eventual governo Lula, caso a pasta seja mesmo recriada. Procurado pelo Estadão, Walfrido negou que o assunto esteja sendo tratado.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Josué Gomes, é outra alternativa sempre considerada pelo núcleo duro da campanha do PT. Filho de José Alencar, que foi vice-presidente nos dois mandatos de Lula, Josué tem perfil técnico, desenvoltura política e até hoje faz pontes entre o PT e o mundo empresarial. Lula queria que ele fosse candidato a vice em sua chapa. Não conseguiu e recorreu ao ex-governador Geraldo Alckmin, que deixou o PSDB. Mas a relação entre os dois é tão próxima que, em 2018, Josué se filiou ao PR – hoje PL, partido de Bolsonaro –, a pedido de Lula.

Na campanha daquele ano, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, então candidato à Presidência, chegou a dizer que Josué tinha “todas as condições, perfil e sensibilidade social" para assumir o cargo de ministro da Fazenda em um governo do PT. O empresário, porém, tem descartado totalmente a possibilidade de assumir cargos públicos, sob o argumento de que vai se dedicar à Fiesp.

“Eu ouvi o ex-presidente Lula dizer que quer uma pessoa da política para ser ministro da Economia”, afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE). “Logicamente que esse nome será assessorado por muitos economistas de alto nível, mas ele quer uma pessoa da política para assumir esse papel.”

Costa admitiu que, caso Lula seja eleito, haverá uma revisão de medidas adotadas por Bolsonaro e pelo ex-presidente Michel Temer. Uma delas é justamente o teto de gastos, regra que limita o crescimento das despesas ao índice de inflação do ano anterior.

“Queremos evitar essa visão fiscalista dos economistas. Por exemplo, é lógico que o governo vai criar algum tipo de âncora fiscal, mas teto de gastos, isso tudinho vai voar. Já voou no governo Bolsonaro", observou o senador. Além da revogação dessa medida,  o “Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil” – lançado pelo PT e pela Fundação Perseu Abramo em setembro de 2020, no auge da pandemia de covid-19 – também menciona a necessidade de revisão da reforma trabalhista e se mostra contrário a privatizações.

Na prática, o perfil buscado por Lula é a antítese de Guedes – conhecido como “Posto Ipiranga” – e mais se parece com o do ex-prefeito de Ribeirão Preto Antonio Palocci Filho. Médico e ex-deputado, Palocci assumiu o Ministério da Fazenda em 2003 e voltou ao poder como chefe da Casa Civil sob Dilma Rousseff, em 2011. Nas duas ocasiões, caiu por ter se envolvido em escândalos. O ex-todo-poderoso ministro chegou a ser preso. Rompeu com Lula e com o PT e assinou acordos de delação premiada com a Polícia Federal, no âmbito da Lava Jato.

A gestão econômica dos governos do PT – sobretudo a conduzida por Dilma – tem sido alvo de ruidosas críticas nessa campanha. Bolsonaro, Ciro e o ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro (Podemos) não se cansam de lembrar a recessão histórica registrada no governo da presidente que sofreu impeachment.

A curiosidade sobre quem vai girar a chave do cofre, porém, sempre ganha os holofotes em períodos que antecedem as eleições. Em 2018, por exemplo, Bolsonaro recorreu ao apelido de “Posto Ipiranga” para se desvencilhar de perguntas sobre economia. Ao admitir que não entendia nada sobre questões relacionadas a juro, inflação e metas fiscais, o então candidato mandava que todos despachassem no guichê de Guedes, o “Posto Ipiranga”. Lula, por sua vez, quer ser o responsável pela condução da economia. “Eu não tenho nenhum porta voz”, insistiu.

Receituário

Integrante do grupo que prepara o programa econômico de Lula, sob a coordenação da Fundação Perseu Abramo, Guilherme Mello (Unicamp) disse que o debate também deve ser feito com quem pensa diferente do PT. Ao ser perguntado pelo Estadão sobre a aproximação do ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) André Lara Resende com o receituário petista, o economista afirmou que ele deve ser ouvido.

"Eu tenho um enorme respeito pelo Lara Resende, tanto na questão da formulação da proposta que deu origem ao Plano Real, a chamada Larida (uma parceria com Pérsio Arida), quanto pela trajetória dele no setor público", observou Mello. Lara Resende foi diretor do Banco Central no governo José Sarney e presidente do BNDES na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

O mistério sobre diretrizes da política econômica em eventual governo Lula se reflete na ausência do candidato em discussões sobre esses assuntos. O ex-presidente se recusou, por exemplo, a participar de um debate promovido pelo banco BTG Pactual, nos próximos dias 22 e 23. 

Bolsonaro, Ciro, Moro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), confirmaram presença e responderão separadamente a perguntas de empresários e banqueiros. Em nota, a assessoria de Lula disse que ele não participará porque não é presidenciável. "Ele ainda não decidiu nem lançou candidatura, já disse que deve tomar essa decisão em março", informou o PT.

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